Eu, a menina que odeia fazer dieta, fico feliz ao ler a seção Espaço Aberto de hoje no Estadão.
Miguel Reale Jr. escreveu um artigo muito interessante sobre o significado do corpo (sim, do físico) desde Adão até os dias de hoje.
Em uma exposição de idéias lindamente encadeadas, ele começa e a glorificação do corpo, considerado pela Bíblia o bem maior, a única coisa que retomaremos no momento da segunda vinda de Cristo. Por isso, segundo o artigo, a forma de controle mais utilizada na Idade Média, por exemplo, as punições e as restrições mais comuns, envolvem castigos físicos e privações do corpo.
Não vivemos mais em feudos medievais. Já passou o tempo em que o corpo das pessoas e sua força física eram escravizados em nome da produção comercial. A filosofia paz-e-amor dos anos 1960 veio para libertar mente e corpo, para dar às mulheres total domínio sobre o seu físico.
No entanto, como bem aponta o artigo, nem sempre as mulheres sabem o que fazer com essa liberdade. E nesse ponto reproduzo as palavras de Miguel Reale Jr.:
"Engano. A exterioridade prevalece, na atenção angustiada ao corpo. Há nova forma de escravidão. Tornam-se escravos do corpo, que escraviza ao ser endeusado como escultura a reproduzir os modelos construídos por celebridades: um desespero a cada grama a mais denunciado pela balança.
(...)
Garotas sem tempo para ler, para exercitar a imaginação e a fantasia, para se entreter com filmes, com brincadeiras e conversas, dedicadas exclusivamente à ginástica autocentrada em frente ao espelho."
E o articulista encerra magistralmente, refletindo-se em suas palavras tudo o que penso a respeito do assunto:
"A aparência predomina sobre a substância. Na nova escravidão, seqüestra-se o espírito: só existe o corpo. E se esquece que os dois, corpo e espírito, devem ser alimentados simultaneamente para uma vida significativa. A busca da beleza escultural como um fim em si mesmo produz mentes insanas, corpos sem densidade."
Falou e disse.
P.S. A inspiração deste post devo a minha querida amiga Stefanne, competentíssima mídia da agência. Não, ela não é uma dessas fanáticas por corpos esculturais, mas, sim, por cérebros em forma. Graças a ela, o jornal chega todos os dias à minha mesa.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
A nova escravidão
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Envelhecer é uma arte
Porque sou uma criatura de hábitos, há alguns anos criei uma rotina para o dia do meu aniversário.
Costumo acordar bem cedo, pouco depois das cinco da manhã. Tomo café com minha mãe, com bolo de chocolate e uma tacinha de champagne (eu sei, é cedo, mas é meu aniversário – o que justifica a comemoração – e é champagne – que pode e deve ser bebida a qualquer hora).
Depois, pego três livros que só são folheados uma vez por ano, no meu aniversário. O primeiro é The New Penguin Book of Love Poetry, antologia de poemas divididos por temas como intimidade, declarações, persuasão, celebrações, separações e outros. Abro o livro aleatoriamente e leio um poema qualquer, embora eu sempre retorne à página 25 para ler o soneto XLIII de Elizabeth Barrett Browning, que transcrevi em outro post.
O próximo livro é Resoluções para o novo milênio, um desses livros de auto-ajuda, com uma frase por página, todas sugerindo ações para melhorar a qualidade de vida individual e das pessoas à nossa volta. É uma ótima forma de fazer um balanço do ano que passou. Faço anotações nas páginas, indicando o ano e comentando como foi.
E, por último, o Guia das Idades, livrinho simpático que indica quem fez o quê, quando e com quantos anos. Abro na página referente à idade que completo e leio, por exemplo, que Michelangelo começou a trabalhar na Capela Sistina aos 33 anos. Com a mesma idade, Mary Wollstonecraft escreveu Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, até hoje um trabalho de sociologia bastante importante para quem estuda o tema Mulher. Não bastassem esses dois exemplos inspiradores, encontro mais um: George Lucas dirigiu o primeiro Star Wars com 33 anos.
33 anos. Agora que escrevo os números, que os vejo na tela do computador, é que finalmente percebo, nossa, como o tempo passa rápido. Tenho amigas que já são 10 anos mais novas que eu e um chefe que é só 10 anos mais velho. Tenho idade para ser mãe de uma estudante de ginásio. E realmente há uma que, embora não seja minha filha, me procura para obter conselhos sobre sua vida adolescente.
Hoje faço 33 anos. Envelhecer é uma arte. Tenho muita sorte de ter exemplos ótimos de como fazer isso sem enlouquecer.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Off to Rio
Viajo hoje à noite para o Rio de Janeiro para passar o fim de semana em meio ao cheiro antigo da Rua do Ouvidor, aos botecos pé-sujo da Lapa, ao esplendor de uma das cidades mais bonitas do mundo na minha opinião. Não que eu conheça muito do mundo, mas não acho que existam tantos lugares tão encantadores quanto o Rio.
Ok, a essa altura vocês estão se perguntando "Essa menina é louca? O Rio de Janeiro é superperigoso, é uma guerra civil a céu aberto, é cheio de favela, o tráfico de drogas manda tanto quanto o governo!" Não, não sou louca. Tampouco alienada. Sei que o Rio de Janeiro tem problemas, mas toda cidade grande os tem.
Mas e o charme? Ah, que lugar charmoso que é o Rio. Andar pelo calçadão do Leblon e de Ipanema, tomar um chopp no Bracarense, comer um rivadávia na Confeitaria Colombo, caminhar pela Avenida Rio Branco, desde a Candelária até a Biblioteca Nacional, coisas que faço todas as vezes em que tenho sorte de a ponte aérea me deixar no Santos Dumont.
E chegar ao Rio, então? Parece que o avião vai pousar no mar, parece que tudo vai se acabar ali, que vamos nos esborrachar contra as pedras e, de repente, a pista aparece, a aeronave toca o solo ao mesmo tempo em que soltamos o ar devagarinho e voltamos a respirar, dessa vez o ar marinho carioca.
Durante muito tempo, tive bronca da cidade. Meu pai morreu em um acidente de carro no Aterro do Flamengo e a mais simples menção ao Rio me causava urticária. Até que meu irmão foi enviado para lá a trabalho e, para não morrer de saudades do pimpolho, tive de superar a ojeriza. Ainda bem. O que era aversão transformou-se em atração, e eu me apaixonei perdidamente pelo Rio. Quando achei que minha admiração estava controlada, eu vi os fogos de Copacabana. Duas vezes. E eu soube que essa paixão duraria para sempre.
Amanhã, vou reencontrar meu amor.
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quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Eu, eu mesma e o outro
Às vezes me pergunto como seria se todos os e-mails que recebo fossem cartas de verdade, aquelas raridades feitas de papel. Imagino que minha mesa estaria coberta de envelopes os mais diversos, os mais inúteis.
O que aconteceria se todos os anúncios que invadem diariamente minha caixa postal eletrônica fossem impressos e enviados pelo correio? Bom, em primeiro lugar, todos os carteiros seriam dublês de Schwarzenegger, Stallone, Vin Diesel ou The Rock: musculosos e com pernas compridas, requisitos essenciais para carregar a pesada sacola de correspondências e caminhar a passos largos para entregar tudo a tempo.
Neste exato minuto, tenho 173 mensagens não lidas na caixa de entrada do Outlook. Porque todas elas são newsletters de sites e blogs que acompanho, o programa permite que eu crie uma regra que as direciona para uma pasta criativamente chamada "Para ler depois". Assim, as mensagens não me incomodam e ficam guardadinhas até que eu tenha um tempinho para lê-las. Ok, já sabemos que eu tenho certa dificuldade em organizar meu tempo, mas isso é assunto para outro post.
O fato é que, além de newsletters, clippings e boletins que recebo e faça questão de ler, mesmo com atraso de semanas, recebo diariamente mensagens tão esdrúxulas que me fazem pensar se esse tal de e-mail marketing foi realmente uma boa invenção.
Se eu atendesse a todos os apelos eletrônicos que me fazem, eu seria a feliz proprietária de um apartamento financiado em 85.913 vezes, teria o melhor seguro-saúde do país, compraria uma réplica original de um relógio Tag Heuer, meus problemas de calvície acabariam com o produto que já apareceu no Globo Repórter, teria perdido 9 quilos em uma semana com uma dieta peruana revolucionária e, o melhor de todos, meu pênis ficaria enorme, com mais de 9 polegadas!
Ou seja, de acordo com o perfil das empresas que me mandam todo esse lixo eletrônico, eu sou um homem careca, gordo, que mora de aluguel e, o pior, impotente! Será que tenho um alter ego de que não tenho conhecimento?
Alô, gente fina cibernética: não está na hora de rever seus conceitos?
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Chegadas e partidas
(foto: José Neves)
"Mande notícias de lá
De alguma forma, em meio à correria, consegui arranjar uns minutinhos para colocar um ponto final na minha monografia e contribuir com o especial sobre o cineasta David Lynch, organizado pelo Homem Nerd.
De novo, o turbilhão passou e posso voltar a minha atenção para alguns projetos que ficaram em segundo plano durante esse tempo, como a preparação dos contos para o segundo número da revista eletrônica Black Rocket e o treino para a maratona de revezamento do Pão de Açúcar.
Sim, sim, vocês leram direito. Eu, a menina que odeia fazer dieta, aceitei fazer parte de uma das equipes de 8 corredores que será patrocinada pela agência de propaganda onde trabalho. Desde que aceitei a incumbência, em um momento de insanidade temporária, tenho acordado às 6 da manhã (!) e treinado no Ibirapuera quase todos os dias.
Justiça seja feita: o apoio inestimável de três mulheres maravilhosas e amalucadas que trabalham comigo tem sido essencial. Por isso, faço questão de nomeá-las: Rose, minha "treinadora", Ticiana e Monise, minhas cheer leaders. Let's go, girls!
A corrida está marcada para o dia 21 de setembro, véspera do meu aniversário. Se eu sobreviver, tenham certeza de que a primeira coisa que farei quando acordar no dia 22 é tomar uma taça de champanhe.
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quarta-feira, 2 de julho de 2008
Reflexões na sala de espera do médico
9h50.
"Será que é possível uma pessoa feliz escrever bem, assim, boa literatura? Essa gente que não tem problema, que está feliz com o que tem, satisfeita no casamento, que tem filhos comportados, goza de boa saúde. Sobre o que uma pessoa dessas falaria? Só posso imaginar que escrevesse um daqueles romances água-com-açúcar ou belo thriller imprevisível. O primeiro, porque refletiria a vida que leva, em que as coisas estão nos eixos e há pouco espaço para surpresas. O segundo, justamente pelas razões opostas, porque seria a única forma de trazer caos para a ordem cotidiana, de acordar a pasmaceira do dia-a-dia e fazer sentir, provocar emoções, que, de outra forma, o autor não sentiria. É preciso ter algum desvio psicológico, alguma tara, obsessão, idéia fixa, algum interesse secreto, para escrever literatura? Na verdade, todos possuímos tudo isso; necessário mesmo é ter coragem de desnudar nossas fraquezas e envolvê-las em papel e letras e palavras. Acho que gente feliz não escreve porque não precisa pensar na própria vida, não se depara com dilemas, não tem de tomar decisões difíceis, tão difíceis que a cabeça fica imaginando inúmeras soluções alternativas para não encarar a realidade.
Quando eu era adolescente, escrevia muito mais, embora nem sempre com qualidade. A maioria das vezes, verdade seja dita, com nenhuma qualidade. mas eu escrevia, tinha muito mais imaginação (ou disposição) para fazer de conta, criar vidas que não eram minhas, fazer nascer relações que não me pertenciam. Hoje, é muito difícil me dissociar da minha própria vida, da minha personalidade, do meu personagem. Sinto que todo personagem que eu criar será uma versão alternativa de mim mesma, e a chance de as pessoas perceberem isso me apavira, a idéia de expor a mim e minhas psicoses, paranóias, essa realidade que só existe para mim, é aterrorizante."
10h20.
"A história da minha vida. Entro e saio de ortopedistas desde que me lembro, Meu pé esquerdo, meu joelho direito, um cotovelo que não lembro qual é, a lombar. Já tirei tanta radiografia que conseguiria juntar todas e montar uma chapa de corpo inteiro, uma versão gótica de um book de modelo e manequim. Tenho a impressão de que meus ossos não fazem parte do mesmo conjunto, como várias caixas de Lego que se misturaram: a do circo com a do cowboy com a do astronauta com a do bombeiro. Quanto tentamos encaixar o chapéu de um na cabeça de outro, até serve, mas fica capenga."
10h35.
"Alguém já reparou como as pessoas adoram parecer super-heróis? Adoram dizer que dormem tarde e acordem cedo, que não precisam de oito horas de sono, que mal tem tempo de almoçar, que vão de São Paulo a Campinas em meia hora, que já foram multados três vezes na Imigrantes, que estão prestes a perder a carta, e achando bonito tudo isso. Que o celular não pára de tocar, que trabalha 15, 16 horas por dia, que não tem tempo de ir ao cinema, que não podem se dar ao luxo de ficar doente. Tudo isso, elas dizem com uma pontinha de orgulho, já repararam?"
10h41.
"Deus me guarde e me conserve para que eu morra do coração, para que eu mantenha minhas faculdades mentais e minhas habilidades físicas até o fim."
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sexta-feira, 20 de junho de 2008
O que as mulheres esperam do amor
É segunda-feira, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista 509, esquina com a R. Manoel da Nóbrega, ao lado do Metrô Brigadeiro), a conversa sobre as mulheres e o amor.
O assunto me interessa muito, observadora da psiquê humana que pretendo ser.
Ontem, após o bate-papo com Nelson de Oliveira na Livraria Sobrado, eu estava no Bar do Giba com duas das mulheres que mais respeito neste mundo: minha mãe e minha madrinha.
O que conversávamos era justamente o que quer a mulher de hoje. Longe de nós querermos ser especialistas no assunto. Apenas trocávamos impressões sobre o que vemos por aí.
Todo mundo quer um amor. Ponto. Pacífico, aliás. Nunca ouvi ninguém dizer com convicção que quer/gosta/pretende ficar sozinho. Lógico que, às vezes, o outro é tão détraqué que é melhor ficar sozinha, mas essa é outra história. Muito bem. Então, você se esforça, dá a cara para bater, faz a trezena de Santo Antônio e, finalmente, o seu amor chega e você fica toda feliz. E depois?
Depois, você não sabe o que fazer. Passou tanto tempo se preparando para o dia da chegada do amor, mas não pensou no que fazer no dia seguinte. Gente, relacionamento dá trabalho, requer dedicação (não se iludam, não tive tantos homens assim, não sou nenhuma expert, falo apenas sobre o que vivencio).
Tem de mimar o bofe, tem de se arrumar. Tem de aguentar os gases do fofo, os porres do fofo. Tem de ser simpática com a mãe do amado, com o chefe, com a secretária, com a estagiária. Tem de agüentar o churrasco com os amigos no fim de semana, o jogo de futebol na quarta-feira, o happy hour com o departamento comercial na segunda-feira.
Tem de dar duro no trabalho. Tem de suportar as manias do chefe, as broncas, as amantes do chefe. Tem de sorrir para a gerente de Compras, para a tia do café, para o contínuo, para a assessora de Imprensa, para o manobrista do estacionamento.
Tem de ir ao supermercado, à farmácia, ao sacolão, posto de gasolina, à floricultura. Comprar orgânicos, reciclar lixo, economizar água.
O que eu acho (e já vou parando o texto por aqui antes que me atirem pedras por ser machista ou me mandem queimar sutiãs e me tornar feminista) é que não dá para ter tudo. Ou melhor, não dá para cuidar de tudo com a mesma dedicação. Não dá para ser executiva top/esposa amorosa/mãe exemplar, tudo ao mesmo tempo, tirando nota 10 com louvor.
Mulheres como a minha mãe e minha madrinha fizeram uma escolha: família em lugar da carreira. Se estavam certas ou não, eu não sei. O que sei é que elas são tão bem-sucedidas quanto o Steve Jobs. Pode parecer radical, mas, de todas as mulheres entre 30 e 45 anos que conheço, eu conto nos dedos da mão (esquerda?) do Lula quantas têm o respeito dos filhos, a admiração do marido e a auto-estima no lugar certo.
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quarta-feira, 11 de junho de 2008
Inverno propagandístico
Hoje é o primeiro dia, em semanas, em que eu chego em casa, vindo da agência, e não tenho outros trabalhos para fazer. Nos últimos tempos, além de revistas varejistas, cartazes de mall e volante promocionais, trabalhei em livros, depoimentos e um guia de sites literários. As únicas coisas em que não trabalhei foram a minha monografia (tadinha, abandonada desde o feriado de Tiradentes) e este blog. Ironicamente, as duas coisas que me dão imenso prazer, meus projetos pessoais.
Não reclamo de ter bastante trabalho, ao contrário, adoro, é lisonjeiro; mas que é bom dar um break, ah!, isso é.
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quarta-feira, 28 de maio de 2008
Pela primeira vez, de novo
Quando eu trabalhava na Livraria Cultura, tinha lá um rapaz que adorava Clarice Lispector. Um monte de gente adora Clarice Lispector, é até uma coisa meio devota, sabe?, de ler os contos como um catecismo e esse rapaz não era diferente.
Então, eu afirmei-perguntei:
"Então, você já leu tudo o que ela escreveu?"
E ele, naturalmente, respondeu:
"Não."
E eu, com aquele ar de como-assim-?, sem entender. Imaginei que, por gostar tanto da autora, ele já tivesse decorado todos os livros dela. Foi quando ele me disse uma das coisas mais esquisitas que já ouvi mas que, estranhamente, tem certa lógica:
"Sabe o que é? Estou economizando a Clarice. A obra dela está pronta e acabada. É perfeitamente possível lê-la de cabo a rabo, quantas vezes eu quiser, na ordem que eu escolher, cronológica, alfabética, randômica, cor da capa. A única coisa que não é possível, após ler a obra toda, e lê-la de novo pela primeira vez. Entende? Como eu posso passar o resto dos meus dias sabendo que não haverá mais nenhum texto dela que eu não tenha lido, sabendo que eu não sentirei mais o desconforto, o arrebatamento, a angústia que a primeira leitura de qualquer conto dela me causa? É isso. Clarice é tão bom que estou economizando para ler durante a vida toda."
Faz sentido? Não sei.
Há autores que adoro, mas de quem ainda não li tudo. Dennis Lehane é um deles, Michael Connely é outro, só para citar dois exemplos. O primeiro porque, sim, de certa forma estou economizando-o para um dia de chuva. O segundo, porque nem tudo já foi traduzido para o português, e também porque acho aqueles pocket books de folha de jornal indecentes de se ler.
Essa longa introdução é para dizer que lembrei-me dessa história porque estou lendo um livro de Agatha Christie de que ouço falar desde a 6a. série, mas que nunca tinha lido: A Mansão Hollow.
Devo, de início, dizer que me espanta como essa senhora ainda consegue me impressionar, mesmo depois de tantos anos de convivência. Conhecemo-nos, Agatha e eu, desde tenra idade (a minha, lógico, tinha eu uns 10 ou 11 anos, calculo) e achei que ela não mais me surpreenderia. Ainda bem que eu estava errada.
Para começar, Hercule Poirot, o personagem mais famoso da velhota, só dá o ar da graça no Capítulo 11 de A Mansão Hollow. Confesso que abri o livro esperando ver o nome dele logo nas primeiras páginas, o que não aconteceu. Continuei lendo, lendo, e nada. Cheguei até a folhear os últimos capítulos para ter certeza de que ele apareceria e só sosseguei quando vi que, lá pela página 200 e pouco, ele indagava qualquer coisa a um mordomo.
Mais calma, passei a prestar atenção na história e o que li me impressionou bastante. Vamos ver se consigo explicar direito o porquê.
John é um médico que trabalha em seu próprio consultório e também em um hospital público. Encontramo-lo animado com o convite para passar o fim de semana na Mansão Hollow, de propriedade de um casal de amigos, Lady Lucy e Lord Henry Angkatell.
A alegria de John, na verdade, deve-se à chance de passar mais tempo com Henrietta, prima de Lady Lucy, por quem John é apaixonado. Detalhe: John é casado com Gerda, uma mulher que passa parágrafos inteiros incapaz de se decidir se deve mandar ou não o pernil de carneiro de volta para o forno, enquanto espera o marido para almoçar.
Gerda é sem-graça, para dizer o mínimo. Não tem vontade ou voz própria, mas esse foi exatamente o motivo pelo qual John se casou com ela. Logo ficamos sabendo que John foi apaixonado por uma mulher maravilhosa, mas que o fez sofrer e empurrou-o para os braços desinteressantes de Gerda.
John não está feliz, mas não sabe como resolver sua situação. Entre Gerda, Henrietta e a lembrança de Veronica, há muito se passando na cabeça do pobre homem.
A história continua, mas o que eu quero destacar é justamente a crise por que passa John e a caracterização das personagens. O que me impressionou não foi a indecisão do médico ou a insipidez da esposa, mas, sim, o fato de que Agatha Christie tenha descrito aspectos tão íntimos e tão ligados à personalidade. Não me lembro de nenhum outro livro em que ela aprofunde tanto a faceta psicológica dos personagens.
Ainda não terminei o livro, mas já gostei. Na verdade, ouso dizer que pouco importa o crime, pouco importa o desvendar do enigma: a história me cativou mesmo sem o suspense.
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domingo, 25 de maio de 2008
Ufa!
Durante as duas últimas semanas, trabalhei tanto, mas tanto, que perdi a conta de quantas horas passei dentro da agência. Eu ia para casa só para tomar banho e dormir, mas de sábado (17) para domingo (18) nem isso fiz: fiquei 24h trabalhando.
Foram 12 dias muito compridos e estou contente porque a loucura acabou. O resultado desse trabalho todo, vocês conferem a partir de segunda-feira, no Expo Center Norte. Toda a comunicação visual, toda a sinalização, todo o material impresso, todas as informações do site, todos os anúncios, tudo, enfim, referente à APAS 2008 foi feito pela agência.
Não me entendam mal: não sou workaholic e acho o fim da picada quem é. Entendo que existam pessoas acostumadas a trabalhar muito e que consigam ser produtivas durante 14h seguidas. Mas ser viciado em trabalho é completamente diferente: é doença e deve ser tratada como tal. A dedicação ao trabalho, na verdade, esconde frustrações e muitas vezes mascara uma situação familiar capenga. Eu li em algum lugar que workaholics se sentem culpados quando não estão trabalhando, como por exemplo durante o fim de semana. Em vez de relaxar e se divertir, ficam pensando em como aquele tempo poderia ser "melhor" aplicado em, adivinhem?, trabalho.
Há algum tempo, eu li trechos de O Ócio Criativo, de Domenico de Masi. Se bem me recordo, a tese era de que a pessoa precisa de lazer para ser criativo, com o que concordo inteiramente.
Bom, a boa notícia (para mim, pelo menos) é que agora terei de volta meu precioso tempo ocioso para retomar todos os projetos que deixei na geladeira durante esses dias.
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domingo, 20 de abril de 2008
Crescer é perigoso
Quando eu era criança, meu pai dizia que “se é um lugar que não existe” (é o título de um livro); meu namorado diz que “na vida, o se não joga”. Apesar de os dois serem as figuras masculinas mais importantes da minha vida, as que mais respeito e admiro, ouso discordar.
Perguntar “e se?” é irresistível. E se eu tivesse cursado Letras em vez de Direito? E se eu não tivesse mudado de carreira? E se eu tivesse ido àquela festa? E se eu tivesse ficado em casa? Imaginarmos uma realidade alternativa à nossa é viciante.
O tema do universo paralelo já foi abordado algumas vezes pelo cinema, como em Homem de Família (The Family Man, 2000), com Nicholas Cage e Téa Leoni, ou Click (2006), com Adam Sandler.
O meu preferido, porém, é De Caso com o Acaso (Sliding Doors, 1998), com Gwyneth Paltrow e John Hannah. No filme, a questão do “e se?” é apresentada de forma charmosa e elegante. Depois de ser mandada embora, Helen pega o metrô para voltar para casa. Na primeira situação, ela consegue entrar no primeiro trem que passa e, ao chegar em casa mais cedo, flagra o namorado com outra. Na segunda situação, ela perde o trem e continua sua vidinha ao lado do namorado cafajeste. Conforme o filme avança, acompanhamos a história das duas Helen e os desdobramentos que advieram do simples fato de ter entrado ou não no metrô.
Claro que, se passarmos o tempo todo avaliando quais são os possíveis desdobramentos de cada um de nossos atos e nossas decisões, é bem provável que enlouqueçamos antes do término da primeira semana. E, pior do que isso, estaríamos sufocando algo que é essencial: nosso instinto.
Falei aqui sobre como é difícil tomar certas decisões, mas acho que racionalizá-las ao extremo não é a solução. É mais fácil, penso eu, encararmos as conseqüências de uma decisão desastrada se ela tiver se baseado em nossa intuição em vez de em qualquer argumento racional. Ora, a racionalidade, por definição, não deveria nunca estar errada, ao passo que à nossa emoção sempre é permitido errar, arrepender-se, descabelar-se, conformar-se, esquecer, perdoar.
Outra palavrinha de definição fácil, mas significado complexo, é escolha. De braços dados com decisão, escolha assombra a mente dos incautos com possibilidade com que, nem sempre, conseguimos lidar.
E aqui chegamos (finalmente) ao gatilho desse post, o filme Um Beijo a Mais (The Last Kiss, 2006), com Zach Braff.
(Explicação rápida: gatilho é uma metáfora para qualquer coisa que dispare um processo ou provoque uma reação específica. Sabe, aquilo que acontece quando você ouve uma música e lembra de alguém ou quando você vê uma tartaruga e pensa em mim :). Será que eu precisava mesmo explicar o que gatilho significa? Talvez não, mas, sei lá, não consigo evitar ser meio professoral. Presunção, eu sei. Então. Ultimamente o gatilho para muitas das minhas reflexões tem sido o cinema. Como vocês podem perceber. Mas, divago. De volta ao texto.)
O longa é uma refilmagem do italiano L’Ultimo Bacio (2001) e manteve o enredo do filme europeu. A abordagem é diferente, lógico, mas também funciona. A história fala de um homem de 29 anos que tem uma crise quando percebe que terá de entrar de vez na vida adulta: sua namorada está grávida. Tem uma resenha minha sobre o filme aqui, se você quiser ler.
Bom, o fato é que Michael, o protagonista, fica apavorado quando percebe que sua vida parece estar inteiramente planejada, sem espaço para surpresas, antes mesmo de ele completar 30 anos. Em suas reflexões, Michael se lembra de que, quando era criança, ele imaginava como seria sua vida aos 30 e o cenário era exatamente o que ele está vivendo. Tudo o que ele imaginava, aconteceu. Ainda assim, ele não se sente seguro o suficiente para se comprometer e tornar-se adulto. Ele se ressente de ter de abandonar um mundo de possibilidades por ter de optar por uma única certeza.
E aí eu pergunto: dá para saber se é uma certeza mesmo? Dá para saber se você fez a escolha certa quando decidiu se casar com aquele namorado que não era bem o que você imaginava, mas que se tornou um bom pai? Dá para saber se você teria sido mais feliz se tivesse feito uma viagem pela Europa antes de entrar na faculdade e ser atropelado pela vida?
Resposta: não dá. O segredo – quer dizer, o meu segredo, o que funciona para mim, já que não sei se a receita desandaria em outra cozinha – é ser fiel a seus princípios e sempre, sempre, ouvir seu coração, não dar ao dinheiro mais importância do que ele merece e agir conforme sua intuição.
Parece trecho de livro de auto-ajuda. Parece filosofia barata. Parece algo que Paulo Coelho falaria. Não importa, tem dado certo há alguns anos e não penso em mudar.
Enquanto a gente pensa nisso, vale a pena ouvir a música-tema de Um Beijo a Mais, "Chocolate", da banda Snow Patrol.
Chocolate
(Snow Patrol)
This could be the very minute
I'm aware I'm alive
All these places feel like home
With a name I'd never chosen
I can make my first steps
As a child of 25
This is the straw, final straw in the
Roof of my mouth as I lie to you
Just because I'm sorry doesn't mean
I didn't enjoy it at the time
You're the only thing that I love
It scares me more every day
On my knees I think clearer
Goodness knows I saw it coming
Or at least I'll claim I did
But in truth I'm lost for words
What have I done it's too late for that
What have I become truth is nothing yet
A simple mistake starts the hardest time
I promise I'll do anything you ask...this time
Postado por Bia às 17:21 7 tartareaders
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segunda-feira, 14 de abril de 2008
O quebra-cabeça e o divã
Então.
Ontem, eu estava no meu escritório em casa, ouvindo música e tentando arrumar a bagunça que fiz em meu IPod. Porque já eram quase 9 horas da noite, meus neurônios já estavam pedindo arrego e resolvi deixar o ITunes de lado.
Para passar o tempo, resolvi experimentar um porta-puzzle que comprei e tirei um jogo de 500 peças do alto do armário. Aqui, cabe um esclarecimento: eu acho quebra-cabeças profundamente relaxantes. Tenho o costume de montá-los quando estou brava ou chateada, por exemplo, para que minha cabeça se ocupe com outra coisa; em pouco tempo as razões do meu desconforto não parecem mais tão importantes. Nada como a passagem do tempo, não?, mesmo que seja apenas algumas horas.
O jogo que escolhi, já o tenho há anos e estou acostumada a montá-lo, motivo porque é sempre minha primeira escolha. Quando a situação é mais grave, vamos dizer uma briga amorosa ou uma crise existencial, eu escolho jogos maiores. Da última vez, levei duas semanas montando um mapa mundi antigo de 3000 peças. A briga (ou a crise, nem me lembro mais) já tinha sido resolvida muito antes de eu encaixar a última peça.
Mas o fato é que ontem, por volta das 9 da noite, eu estava sentada no sofá do escritório montando um quebra-cabeça. Tinha ligado o rádio e ouvia os últimos comentários sobre a rodada dos campeonatos estaduais, dado que a estação sintonizada era a CBN. Aqui cabe outro esclarecimento: o rádio do escritório está sempre sintonizado na CBN. Preferência, você vai perguntar? Sim; prefiro-a a BandNews ou a outra rádio de notícias qualquer. Mas há mais que isso. Meu aparelho não tem dial digital, o que dificulta uma sintonia precisa e sem chiados. Junte a isso as milhões de rádios pirata que estão no ar e voilá: se eu mexer no dial, nunca mais consigo achar a rádio novamente. Já tentei, acredite, mas não deu certo. Eu ligava o rádio e uma voz cavernosa dizia que Satanás está em cada esquina, esperando que eu caísse em tentação para me levar para o fogo dos infernos. Passei três semanas olhando por cima do ombro cada vez que ia atravessar a rua, com medo de que Lúcifer em pessoa fosse me dar o bote a qualquer momento. Finalmente, consegui, em uma noite clara e sem lua, localizar a CBN. Desde então, fica assim, eternamente ligado na rádio que toca notícias, e as únicas vozes que ouço são de Heródoto Barbeiro, Milton Jung e Adalberto Piotto. Algumas delas atiçam minha imaginação e curiosidade, mas esse é outro assunto.
De volta à história (porque a essa altura você nem se lembra mais do que eu estava falando).
Eu dizia que estava ouvindo rádio por volta das 9 da noite. Assim que terminou a rodada esportiva, o locutor anunciou que o próximo programa era o do psicoterapeuta Flávio Gikovate. Pensei em desligar o rádio, mas mal conseguia me mexer, com aquele puzzle no meu colo e tudo o mais. Deixei o programa seguir em frente.
Meio distraída, ouvi o anúncio do tema: por que as pessoas repetem determinado tipo de escolha afetiva, principalmente as inadequadas? A partir daí, Gikovate passou a falar sobre baixa auto-estima e a atender telefonemas de ouvintes, e minha atenção já estava presa às palavras do especialista.
Minuto após minuto, o rosário de problemas que chegavam pelo telefone e por e-mail trazia diversas dúvidas, a maioria sobre relacionamentos amorosos. Um homem apaixonado por uma colega de faculdade com metade da idade dele; outro que sabe que tem baixa auto-estima, mas não sabe o que fazer para mudar e agrava ainda mais sua condição porque só se relaciona com prostitutas.
Comecei esse post com a idéia de falar sobre as dificuldades de relacionamento, sobre as pessoas que complicam ainda mais algo complexo como o amor, sobre como alguns são egoístas e outros têm medo de ser feliz no amor. Pensei em falar sobre tudo isso, mas vou deixar para outra ocasião. O texto já está muito longo, acabei fazendo digressões, como sempre.
No lugar, deixo o áudio do programa No divã do Gikovate de ontem, que me fez companhia no final do meu domingo. Quem quiser ouvir, pode refletir sobre o assunto para, quem sabe, retomarmos a discussão outro dia.
Postado por Bia às 15:17 3 tartareaders
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
Não sou Momo, mas sou o senhor do tempo
Diversas vezes, durante a semana passada, pensei em passar por aqui e pedir desculpas aos frequëntadores do blog por não tê-lo atualizado diariamente, como eu estava acostumada, por falta de tempo. Mas, depois, pensei: ninguém vai acreditar nisso. Como assim, falta de tempo? Se eu conseguisse arranjar tempo para escrever um post de desculpas, melhor seria usá-lo para comentar sobre algo mais interessante.
Essa questão de tempo é uma coisa engraçada. Quantas vezes não ouvimos alguem dizer, "não faço porque não tenho tempo"? O sujeito não toma café da manhã porque sai correndo e não almoça porque tem muito trabalho. Não convida os amigos para jantar porque não tem tempo de preparar a refeição. Não vai ao cinema porque não tem tempo para ficar na fila, mas compra um carro cada vez maior e mais rápido para chegar antes nos lugares. O que esse fulano faz quando tem um tempo livre é um mistério para mim. Sim, porque até um sujeito desses tem tempo livre de vez em quando. Talvez ele arranje uma amante e se queixe a ela de que a mulher parece não ter mais tempo para ele.
Tempo, para mim, é questão de escolha. Se quero fazer um mestrado, mas trabalho das 9h às 19h e não consigo assistir às aulas, devo escolher entre o emprego e a universidade. Se não posso para de trabalhar porque tenho de pagar minhas contas, a escolha está feita e o tempo nada tem a ver com isso. Se quero fazer exercícios e o único período de que disponho é a manhã, então devo escolher entre o sono e o parque e, de novo, não se pode falar em ter tempo ou não.
Então, faltou-me inspiração? Também não, sobrou assunto. Poderia ter comentado sobre o caso Isabella Nardoni, o dossiê da Dilma, o caos no trânsito ou algum livro que li. O caso da menina, no entanto, com o tempo, será resolvido; já o caso da Dilma... acho que nem o tempo nos dirá! Problemas de tráfego existem desde tempos imemoriais e, francamente, falar sobre os livros que li talvez fosse perda de tempo para quem não é estudioso de literatura policial como eu.
E mais alguém notou como o tempo parece estar transcorrendo de forma esquista ultimamente? Estamos em abril, certo?, mas para mim parece que já faz muito mais do que quatro meses, desde que desembarquei meio macambúzia, parece que faz anos. Paradoxalmente, as semanas tem passado muito rápido: nem bem começa a segunda-feira e já estamos pensando na sexta, que chega com velocidade impressionante.
Nessas horas, lembro-me daquele monte de livro sobre gerenciamento de tempo que existe por aí. Parecem interessantes, sérios e com base científica. Acho que poderiam ser de grande ajuda para gente confusa e afobada como eu.
A verdade, porém, é que não tenho tempo para lê-los.
Boa semana!
Postado por Bia às 10:26 3 tartareaders
segunda-feira, 31 de março de 2008
Conversa de elevador
Elevadores, restaurantes pequenos, filas (de banco, de cinema), entre outras banalidades cotidianas, são sempre uma ótima fonte de sabedoria popular. Hoje, voltando do almoço:
“Ah, mas eu, quando tiver assim, uns dois anos de formada, já quero estar ganhando assim, tipo, uns 15 mil reais.”
Fiquei pensando que tipo de carreira ensejaria salário tão alto para um recém-formado. Cientista de foguetes? Não, no Brasil só temos a base de Alcântara, no Maranhão, e não acho que paguem tão bem assim. Talvez a moça estivesse cursando uma faculdade secreta, por exemplo, um curso de graduação modulada de Como-se-tornar-Bill-Gates-em-três-semestres ou um MBA em Criação de Programas Dominicais Infames para Auditório Idem. Em poucos segundos, o esclarecimento:
“Nossa, amiga, mas você não quer mais nada, não?”
“Ué, foi por isso que escolhi publicidade, propaganda, marketing, essas coisas. Dá mó grana.”
Continuei de costas, olhando para o vazio prateado das portas do elevador. Imaginava se, ao deixar o Direito e me tornar revisora e preparadora de textos, eu teria escolhido a profissão errada (de novo) ou se o mundo tinha pirado de vez. Não consegui chegar a uma conclusão antes de as portas se abrirem. Entrei no escritório, sentei à minha mesa e, ao lado de Aurélio, Celso Luft e Eduardo Martins, fui distribuindo vírgulas, maiúsculas e carimbos de revisão.
Outro dia, descendo a ladeira da Rua Augusta:
“Sabe, véio, de mulher, assim, eu não tenho preferência. Meu gosto é beleza internacional.”
O que seria essa tal de “beleza internacional”? Será que a eleita tem de ter olhos japoneses, cabelos escandinavos, peitos americanos e bunda brasileira? Ou boca francesa que faz biquinho, nariz tailandês e pernas italianas? Apertei o passo e desisti de entender o gosto daquele freguês. Eu, com bunda africana, barriga alemã, estatura pigméia, nariz grego e cabelo português.
Mas, ouvir a conversa dos outros não é falta de educação? Não sei. O que sei é que desde criança percebia quando minha mãe ou meu tio Dante, de repente, alheios à conversa, inclinavam levemente a cabeça para o lado e todo o corpo parecia pender em direção à mesa vizinha. Em poucos instantes, um sorriso gaiato surgia no canto da boca e eu sabia que eles tinham escutado alguma pérola.
Certa feita, esperava minha vez para almoçar no restaurante anos 50 da Vila Madalena. Balcão apinhado, sentei-me para tomar um Bloody Mary e vi, lá na outra ponta, um balde de gelo com uma garrafa de champanhe. “Ora, ora”, pensei, “tem alguém comemorando.” Mais tarde, quando já estava sentada, o balde com a garrafa estava na mesa ao lado. O rapaz, de um ineditismo invejável, pediu um strogonoff para acompanhar as borbulhas. A moça, um picadinho e uma água com gás. Não demorou para que a ouvíssemos dizer “mas você não entende, a gente quer coisas muito diferentes, não dá mais”. Não pude evitar sentir pena do rapaz. Embora tenha se esmerado, com champanhe e tudo o mais, a tentativa de reatar o casamento não prosperou. Como diria minha avó, gastou vela boa com defunto ruim.
Observar o que acontece ao nosso redor é uma arte, que o diga Nelson Rodrigues.
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terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Abaixo a dieta 2
Já falei diversas vezes, aqui no Casco, sobre gastronomia. É uma das minhas paixões, a que pouco tenho me dedicado, menos por falta de cobaias para experimentar minhas incursões culinárias e mais por falta de tempo, já que passo doze horas por dia escrevendo.
Falei sobre chocolate, sobre panetone com champagne, falei sobre como acho abominável e desprezível fazer dieta. Não importa o quanto eu escreva sobre o assunto, dificilmente abordarei-o com tanta delicadeza e precisão quanto Xico Sá, em seu post de 20 de janeiro:
PARA REABRIR O APETITE DAS MOÇAS
Nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface ou rúcula.
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à milanesa, um chambaril, um torresmo decente, uma costela no bafo.
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida, abafa o caso.
Toda preocupação feminina agora está voltada para a estatística das calorias, as quatro operações da magreza absoluta, ditadura da tabuada, lero lero, vida noves fora zero. É como se todas fossem posar para a ''The Face'' do dia para a noite, fazer bonito nos editoriais de moda, vôte! Mal sabem que isso não tem, para homem que é homem, quase nenhuma importância.
François Truffaut, o francês cineasta, padrinho sentimental deste cronista, já alertava, em depoimentos registrados em suas biografias, o valor insuperável das mulheres normais e o seu belo mundo de pequenas imperfeições. Tudo sob medida das nossas taras sem réguas, sem balanças, sem trenas.
Além do prazer de vê-las comendo, coisa mais linda, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, cricris, chatas, dão mais trabalho na rua, em casa, no bar, pense no barraco!
Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.
Às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos, ao sanduíche de mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado, que capricha na carne e incentiva os seus pecados todos. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste...O importante é reabrir o apetite das moças, pois homem que é homem, como diz meu velhíssimo mantra, não sabe sequer - nem procura saber - a diferença entre estria e celulite.
Escrito por xico sá às 21h46
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O que pensa o paulistano
Ouço no CBN São Paulo, programa apresentado pelo Milton Jung, a notícia de que o IBOPE fez uma pesquisa no início de janeiro acerca do que pensam os paulistanos sobre a cidade em que vivem.
Eis o que foi perguntado:
1. Com transporte público melhor você deixaria seu carro em casa?
2. Existe muita corrupção na capital paulista?
3. Tem ronda policial próximo da sua casa?
4. Já votou em conselhos municipais?
5. Sabia que existem 31 subprefeituras?
6. Você sente orgulho de morar em São Paulo?
Depois de pensar um pouco, respondo que:
1. Com certeza! Não me importo de andar de ônibus ou metrô e, em certas ocasiões, até prefiro, mesmo que a viagem demore mais tempo. Levo um livro ou me distraio com a paisagem, matutando posts para o Casco.
2. Acho que sim. No setor público, tudo o que sei é o que ouço no rádio, nunca fui vítima de extorsão. No setor privado, bom, aí é diferente... Já vi muita coisa feia.
3. Sim.
4. Não. E, correndo o risco de ser tachada de alienada, eu pergunto: onde acontecem e para que servem?
5. Sim
6. Muito, muito. Não é uma cidade fácil, não são pessoas fáceis, mas ainda acredito que as vantagens superam imensamente as agruras.
E vocês?
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Para gostar de ler
O enredo do livro de Bennett celebra o prazer de ler: é uma fantasia sobre o dia em que a Rainha da Inglaterra, ajudada por um dos cozinheiros do palácio, toma emprestado o livro The Pursuit of Love, crítica à aristocracia inglesa das décadas de 1920 e 1930 escrita por Nancy Mitford, em uma biblioteca circulante. O autor descreve como, ao longo da leitura, a Rainha descobre os prazeres mundanos da palavra escrita.
No artigo publicado, Motoko Rich entrevistou algumas pessoas ligadas ao mundo editorial sobre os livros que desempenharam o papel de despertá-los para a leitura. Nomeá-los foi tarefa fácil para os entrevistados, mas justificar o porquê foi bem mais complicado. Como mencionado no artigo, apesar de termos blogs literários, grupos de leitura e discussão, cursos livres e de pós-graduação, o ato de ler é extremamente íntimo e pessoal. Assim, cada livro despertará em cada um de seus leitores sensações as mais diversas possíveis. Já falei aqui como não consegui segurar as lágrimas ao final de A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón, mas emocionei-me da mesma forma em O senhor dos anéis. Vai entender..., ou melhor, como explicar?

A versão brasileira do artigo também traz depoimentos de escritores, dramaturgos, atores e atrizes sobre o livro que instalou o hábito da leitura em suas vidas. Muitos citam não especificamente um título, mas um autor, Monteiro Lobato. Donde concluo duas coisas: a primeira é que, na maioria das pessoas, o hábito da leitura é adquirido quando criança, e a segunda é que ainda não houve quem superasse o mestre do Vale do Paraíba.
Mario Prata, colunista do Estadão, respondeu que o livro que o empurrou para outras leituras e fez dele um Leitor foi Encontro marcado, de Fernando Sabino. Essa declaração me fez lembrar do termo alemão bildungsroman, que quer dizer “romance de formação” ou “romance de aprendizagem”, que se aplica ao livro de Sabino. O termo foi consolidado por Goethe, mas existem inúmeros exemplos desse subgênero narrativo em outras literaturas além da alemã. Não estudei o assunto a fundo para dar aqui as explicações teóricas necessárias, mas, em resumo, é aquele romance que registra as transformações emocionais, psicológicas e de caráter por que passa o personagem principal, em decorrência de acontecimentos do mundo exterior; trata do desenvolvimento interior do personagem. Assim, o bildungsroman não tem traços formais definidos, mas uma temática recorrente.Encontro marcado também foi, para mim, um livro muito importante. Representou o ingresso na minha fase de leitura adulta, o momento em que deixei a linha demarcatória da literatura juvenil, dos tempos de coleção Vaga-lume, para trás.
Antes de Encontro marcado, porém, foi outro livro de Fernando Sabino que fez com que minhas amigas e eu nos reuníssemos na hora do recreio para fazer comentários e imaginar como nossa vida seria diferente se nosso bicho de estimação fosse como a galinha Fernanda: O menino no espelho. Tenho duas amigas que, até hoje, me chamam de Aibí, corruptela da leitura invertida do meu nome. Quem leu o livro, sabe a origem.
Além de Sabino, Stella Carr e João Carlos Marinho foram decisivos para me tornar a viciada que sou. A medida em que eu crescia, Agatha Christie foi a responsável por deflagrar a minha paixão pela literatura policial, cujo posto máximo é hoje ocupado por Marçal Aquino e Dennis Lehane.
As primeiras cenas de sexo que li foram em livros de Sidney Sheldon, para quem já rendi homenagens aqui. A primeira vez em que percebi como os laços entre mães e filhas são poderosos e frágeis, ao mesmo tempo, foi em O clube da felicidade e da sorte, de Amy Tan. A última vez em que fiquei impressionada com a inevitabilidade e o conformismo de um personagem foi quando li São Bernardo, de Graciliano Ramos, há um ano.
Muitos outros livros foram lidos nesse meio tempo, alguns me afetaram mais, outros nem cheguei a terminar. Minha busca continua, incessantemente, pelo próximo texto em que consiga me enxergar, colocar-me dentro da história, tal qual um personagem.
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Resoluções de Ano Novo
Acho que o fato de acordarem de ressaca, depois de taças e taças de champagne em meio a fogos de artifício, contribui para que uma das mais populares resoluções seja a de não abusar da bebida.
Logo em seguida, disputando acirradamente o primeiro lugar, está a resolução de perder peso. Todo mundo gostaria de se livrar de um quilinho a mais, ou dois, ou dez. E que época melhor para fazer isso que o verão? As Festas já passaram, o peru, tender e pernil já acabaram, sobraram só duas fatias ressecadas de panetone e todo aquele espumante foi devidamente escoado. Perfeito.
Postulado derivado da resolução anterior é a resolução de fazer exercícios. Caminhar, correr, ir a academia são figurinhas carimbadas em toda lista. Quanta originalidade.
Não me entendam mal. Acho que todas essas resoluções são ótimas e eu mesma já as escrevi várias vezes. Que elas tenham perecido no momento em que chegou o Carnaval é outra história, mas elas existiram.
Meu desejo, porém, é ler que a resolução de Ano Novo de alguém é tornar-se uma pessoa melhor, e não necessariamente mais bonita, compreendem? Não importam os meios a serem utilizados, mas que sejam ferramentas de evolução.
Como eu não resisto, aí vai a minha lista de resoluções: fazer trabalho voluntário, doar sangue regularmente, ler um livro por semana, assistir a mais filmes nacionais, não xingar os outros motoristas, aguardar pacientemente em filas, voltar a estudar, ver menos televisão, assinar (e ler!) um jornal. E, simplesmente, não abandonar o blog.
E quanto a vocês?
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domingo, 6 de janeiro de 2008
“All the things I could have said and done”
O título desse post é uma frase clichê que não sai da minha cabeça desde ontem, quando aportamos em Santos. A infinitude de possibilidades que existe para cada pessoa é algo que me assusta. Tudo o que eu poderia ter feito e não fiz, tudo o que eu poderia ter sido e não fui. O mundo é muito maior do que eu e essa percepção, por vezes, é dolorosa.
Há mais de três anos não me sentia entristecida e chorosa, imaginando o que poderia ter sido, como eu poderia ter vivido, indagando se as escolhas que fiz valeram a pena. “Se”, para mim, não é um lugar que não existe; “se” é o lugar onde sou tudo, plena e ignorante do “agora”.
Tem algo de inquietante em estar no meio do mar, por maior que seja a embarcação em que você navega. Fez com que eu amalucasse um pouco, mas já passou.
Ao batente.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Não sou feminista.
Dito isso, acho que posso extravasar minha indignação sem medo de ser rotulada. Eu já chamei a atenção para o fato de as mulheres serem oprimidas pela dor-de-cotovelo masculina aqui e aqui. Na semana que passou, outro fato demonstrou o desprezo com que a maioria das mulheres é tratada.
Em Abaetetuba (PA), uma jovem de 15 anos passou 30 dias presa em uma cela comum, na companhia de 20 homens. A revista Época desta semana diz, na seção Fala Brasil, que ela foi agredida e obrigada a fazer sexo em troca de comida. Não posso nem imaginar as barbáries a que essa moça foi submetida. É difícil esperar que ela consiga superar o trauma e seguir em frente com sua vida, mesmo depois de cumprir a pena por tentativa de furto, castigo que nem de longe se compara à provação que ela já enfrentou na cadeia.
É óbvio que as mulheres sofrem mais abusos do que os homens. Se não fosse assim, não haveria delegacias especializadas em anotar cada tabefe, cada bofetada, cada soco desferido contra uma mulher.
As humilhações de que as mulheres são vítimas são constantes. Muitas delas, são tão corriqueiras que nem percebemos quando acontecem. A linha que separa o elogio da ofensa é tão débil que às vezes não sabemos quando foi ultrapassada. É elogio recebermos uma cantada em uma boate mas é humilhante quando o segurança da mesma boate não tira os olhos dos seus peitos? É humilhante quando passam a mão na sua bunda no ônibus mas é elogio quando o bonitão do escritório faz a mesma coisa na sala de reuniões?
Eu não acho que homens e mulheres têm de ser iguais. Acho saudável que todos nós cultivemos nossas diferenças porque só assim saberemos apreciar o que o outro tem de interessante. Mas termos dois pesos e duas medidas é tão prejudicial quanto nos calarmos frente a barbaridades como a que aconteceu em Abaetetuba.
Em tempo: o jornal Metro de hoje noticia na p.4 que a jovem de 15 anos teve de sair do estado do Pará por temer pela própria segurança.

