Na sexta-feira passada, fechei em grande estilo um ciclo a que me tinha submetido há uns dez dias: fui assistir à encenação de Hamlet, com Wagner Moura no papel principal.
Desde que a peça estreou, animei-me de, finalmente, ver uma montagem da que é tida como a maior criação de Shakespeare. Quis assistir à leitura de Hamlet feita por Marco Ricca, quando dirigido por Jô Soares há alguns anos, mas perdi a oportunidade. Dessa vez, jurei para mim mesma que não deixaria passar, ainda que tivesse de ir sozinha ao teatro. Não precisei ser tão radical; minha mãe (ah, as mães!) de bom grado acompanhou-me, já que eu não submeteria Papageno a três horas de falatório arcaico.
Tão ansiosa que eu estava para assistir à peça que, em preparação, relembrei as versões cinematográficas da história, em ordem cronológica: Laurence Olivier, Mel Gibson, Kenneth Branagh e Ethan Hawke. Certo é que há outras, mas essas são as mais famosas e as que quis estabelecer como parâmetro de comparação.
Antes que eu comece, é preciso frisar que não sou crítica teatral ou de cinema. Ao contrário, meus gostos são extremamente simplórios. Se dou minha opinião quanto a Hamlet, é apenas porque gosto muito da história e do autor.
Achei o Hamlet de Laurence Olivier algo afetado, mas bem menos caricato que o de Mel Gibson e Wagner Moura. A loucura de Olivier é controlada, contida, altiva, algo esnobe, bastante condizente com a época em que o filme foi feito (1948) e com sua formação.
Laurence Olivier
Mel Gibson é um lixo, desculpem-me os fãs. Muito no filme de Zeffirelli é esquisito, agora que parei para pensar. A rainha Gertrudes de Glenn Close parece uma adolescente e aquele Laertes não convence. Por outro lado, Ian Holm faz o melhor Polônio que já vi, o mais confuso e pernóstico possível, e Alan Bates, como rei Cláudio, é viril como deve ser alguém que teve a coragem e crueldade de assassinar o próprio irmão.
E a versão de Kenneth Branagh? Impecável, é o mínimo que pode ser dito. O filme traz o texto integral dessa peça que é a mais extensa de todas as escritas por Shakespeare, dá para acompanhar as falas do texto palavra por palavra no livro. Cansativo? Um pouco, mas extremamente gratificante.
Kenneth Branagh
Mas, divago. Ao que interessa.
Primeiro, as instalações. O Teatro FAAP é simpático, pequeno, confortável, mas mereceria um café com mais opções. Não sei se tomo como base as excelentes opções do catering da Sala São Paulo, mas o público talvez gostasse de uns docinhos, vinho ou coisa assim. Eu sei que eu bem gostaria de um champanhe antes do espetáculo. (Ocorre-me, agora, enquanto escrevo, que talvez o café não possa servir bebidas alcoólicas justamente por situar-se dentro de uma faculdade.) De qualquer jeito, não é isso que importa.
O que importa é que a montagem está bárbara. O cenário é bastante simples. Quer dizer, quase não tem cenário, os elementos de composição – cadeiras, tapetes, banquinhos, arcas, bandeiras – são trazidos e retirados de cena pelos próprios atores.
Wagner Moura optou por um Hamlet mais atormentado que os outros que já vi até hoje. Mais descabelado, mais circense. Confesso que, conforme a peça se aproximava do fim, estava um pouco cansada de tanto pula-pula em cena, mas compreendi que foi a leitura que o ator escolheu e me conformei. Não é nada que prejudique a peça, porém. Os solilóquios estiveram muito bons, a tradução inclusive. Eu esperava por cada um dos trechos com ansiedade colegial e é com prazer que digo que minha angústia foi recompensada quando consegui identificar na fala dos atores as frases lidas e ouvidas tantas vezes.
Não posso deixar de mencionar a atriz Georgiana Góes, que faz Ofélia. A crueza com que desempenha a loucura da pobre moça é incômoda de tão real, comovente de tão desesperançada. Maravilhosa.
Quem estiver em São Paulo, vá. A peça fica em cartaz até fim de setembro e depois vai para o Rio. Não percam. Relevem as inúmeras fanzocas de Wagner Moura que não sabem quem é Hamlet ou Shakespeare e estão na platéia apenas para ver o Capitão Nascimento de perto. O espetáculo vale cada segundo, cada palavra.
E para mostrar o quanto Shakespeare pode ser pop, até os Irmãos Warner já arriscaram uma das cenas de Hamlet:
Animaniacs
Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Hamlet, Prince of Denmark
Postado por Bia às 21:54 2 tartareaders
Tartatags:
Shakespeare,
teatro
segunda-feira, 13 de novembro de 2006
Anjo caído

Atendendo a um pedido do DD Simão, o Cireneu, vou falar um pouquinho só dessa pessoa que gosto muito. Não sei nem se é certo dizer assim, fica parecendo que se trata de alguém que eu conheça, o que não é.
Não me lembro quando minha admiração por Nelson Rodrigues começou. Costumo dizer que o apreço por Nelson Rodrigues costuma pular gerações. Não é regra, mas as pessoas entre 50 e 60 anos não costumam gostar muito de Nelson, não sei se porque o pensam como um doidivanas, um pervertido, um pornográfico. Por outro lado, os mais jovens, que não viveram a época em que Nelson era censurado sem cerimônia, pode se deleitar com o excelente e impecável trabalho de Ruy Castro, que organizou a maior parte da obra para a Companhia das Letras.
Nelson Rodrigues é um apreciador do cotidiano. Não trata de temas elaborados, escreve apenas sobre aquilo que todo mundo sabe mas ninguém quer comentar porque é feio, não é direito, não se faz. Justamente o fato de ele esfregar essas impropriedades em nossas fuças, trazer essas depravações para dentro dos lares de média classe e meia idade é que o torna tão fascinante e verdadeiro. Afinal, se puxarmos pela memória, todos nós conseguiríamos pensar em uma ou duas histórias dignas de Nelson e que ocorreram com uma cunhada, uma prima, um vizinho, um colega de repartição...
Para quem quiser saber mais:
- A Mentira, de Nelson Rodrigues (excelente, importa menos o desfecho e mais o retrato do desvio comportamental humano)
- O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro (biografia completíssima, fotos e tudo o mais)
- Releituras (pílulas de Nelson)
E para encerrar:
"Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo."
É isso.
Postado por Bia às 20:36 2 tartareaders
Tartatags:
literatura,
teatro
Assinar:
Postagens (Atom)
