Páginas

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Hamlet, Prince of Denmark

Na sexta-feira passada, fechei em grande estilo um ciclo a que me tinha submetido há uns dez dias: fui assistir à encenação de Hamlet, com Wagner Moura no papel principal.

Desde que a peça estreou, animei-me de, finalmente, ver uma montagem da que é tida como a maior criação de Shakespeare. Quis assistir à leitura de Hamlet feita por Marco Ricca, quando dirigido por Jô Soares há alguns anos, mas perdi a oportunidade. Dessa vez, jurei para mim mesma que não deixaria passar, ainda que tivesse de ir sozinha ao teatro. Não precisei ser tão radical; minha mãe (ah, as mães!) de bom grado acompanhou-me, já que eu não submeteria Papageno a três horas de falatório arcaico.

Tão ansiosa que eu estava para assistir à peça que, em preparação, relembrei as versões cinematográficas da história, em ordem cronológica: Laurence Olivier, Mel Gibson, Kenneth Branagh e Ethan Hawke. Certo é que há outras, mas essas são as mais famosas e as que quis estabelecer como parâmetro de comparação.

Antes que eu comece, é preciso frisar que não sou crítica teatral ou de cinema. Ao contrário, meus gostos são extremamente simplórios. Se dou minha opinião quanto a Hamlet, é apenas porque gosto muito da história e do autor.

Achei o Hamlet de Laurence Olivier algo afetado, mas bem menos caricato que o de Mel Gibson e Wagner Moura. A loucura de Olivier é controlada, contida, altiva, algo esnobe, bastante condizente com a época em que o filme foi feito (1948) e com sua formação.


Laurence Olivier

Mel Gibson é um lixo, desculpem-me os fãs. Muito no filme de Zeffirelli é esquisito, agora que parei para pensar. A rainha Gertrudes de Glenn Close parece uma adolescente e aquele Laertes não convence. Por outro lado, Ian Holm faz o melhor Polônio que já vi, o mais confuso e pernóstico possível, e Alan Bates, como rei Cláudio, é viril como deve ser alguém que teve a coragem e crueldade de assassinar o próprio irmão.

E a versão de Kenneth Branagh? Impecável, é o mínimo que pode ser dito. O filme traz o texto integral dessa peça que é a mais extensa de todas as escritas por Shakespeare, dá para acompanhar as falas do texto palavra por palavra no livro. Cansativo? Um pouco, mas extremamente gratificante.


Kenneth Branagh

Mas, divago. Ao que interessa.

Primeiro, as instalações. O Teatro FAAP é simpático, pequeno, confortável, mas mereceria um café com mais opções. Não sei se tomo como base as excelentes opções do catering da Sala São Paulo, mas o público talvez gostasse de uns docinhos, vinho ou coisa assim. Eu sei que eu bem gostaria de um champanhe antes do espetáculo. (Ocorre-me, agora, enquanto escrevo, que talvez o café não possa servir bebidas alcoólicas justamente por situar-se dentro de uma faculdade.) De qualquer jeito, não é isso que importa.

O que importa é que a montagem está bárbara. O cenário é bastante simples. Quer dizer, quase não tem cenário, os elementos de composição – cadeiras, tapetes, banquinhos, arcas, bandeiras – são trazidos e retirados de cena pelos próprios atores.

Wagner Moura optou por um Hamlet mais atormentado que os outros que já vi até hoje. Mais descabelado, mais circense. Confesso que, conforme a peça se aproximava do fim, estava um pouco cansada de tanto pula-pula em cena, mas compreendi que foi a leitura que o ator escolheu e me conformei. Não é nada que prejudique a peça, porém. Os solilóquios estiveram muito bons, a tradução inclusive. Eu esperava por cada um dos trechos com ansiedade colegial e é com prazer que digo que minha angústia foi recompensada quando consegui identificar na fala dos atores as frases lidas e ouvidas tantas vezes.

Não posso deixar de mencionar a atriz Georgiana Góes, que faz Ofélia. A crueza com que desempenha a loucura da pobre moça é incômoda de tão real, comovente de tão desesperançada. Maravilhosa.

Quem estiver em São Paulo, vá. A peça fica em cartaz até fim de setembro e depois vai para o Rio. Não percam. Relevem as inúmeras fanzocas de Wagner Moura que não sabem quem é Hamlet ou Shakespeare e estão na platéia apenas para ver o Capitão Nascimento de perto. O espetáculo vale cada segundo, cada palavra.

E para mostrar o quanto Shakespeare pode ser pop, até os Irmãos Warner já arriscaram uma das cenas de Hamlet:


Animaniacs

2 comentários:

Sir Fart disse...

Dica anotada. Toda vez que fui ver, posta em cena, alguma peça, alguma obra, alguma coisa qualquer que já houvera lido, decepcionei-me; contudo, é lição de sabedoria - e v. bem a demonstra - aceitar a interpretação alheia. Olhos para o mundo, olhos para dentro de si, olhos para fora de si, olhos. Críticos, naturalmente.
Abraços fortes!

Bia disse...

Sempre é bom ver as coisas sob outras perspectivas, outros pontos de vista, outras interpretações, e perceber que, no fim, todas concorrem para formar um só retrato, mais rico à medida que agregamos outras faces.
Beijos, amigo!