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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A minha escrita

Quanto mais leio, mais sinto que sou incapaz de produzir um texto de ficção de qualidade. Acho que o fato de saber o quanto alguns são bons, faz-me temer o quanto posso ser ruim.

Minhas falhas são inúmeras, e não as relatarei todas, mas, por exemplo, eu não sei escrever em terceira pessoa; meu foco narrativo está sempre em primeira pessoa. Essa característica acaba por imprimir um tom confessional e memorialista à minha escrita e que não é inteiramente real. Tudo o que escrevo são, sim, as minhas memórias, mas nem sempre elas aconteceram. Muitas vezes são hipóteses, fragmentos do que poderia ter sido.

O que nos leva a uma outra questão, menos técnica porém mais delicada: o sentimento que mistura vergonha, timidez, senso de autopreservação e egoísmo e que me toma cada vez que penso em publicar, mesmo que seja no blog, os meus textos. Se tudo o que escrevo advém das minhas memórias – ainda que inventadas –, tudo o que sou transparece. Mas será que quero (ou posso, ou devo) deixar que saibam quem eu sou?

Meu grilhão é a opinião de quem está ao meu redor. Será que perceberão que é tudo verdade? Ou, pior, será que entenderão que é verdade só para mim?

Minha escrita não tem data, não tem nome, não tem local. Como posso dar outro nome àquele que é personagem de mim e, no entanto, não é aquilo que sou? Como posso fazer local aquilo que é estrangeiro? Como posso atribuir espaço delimitado aquilo que está fora de lugar? Essa escrita também não tem começo, não tem fim, é fragmentada, porque a minha memória é assim.

Ao mesmo tempo, é o ato de escrever que permite que eu seja duas, três, várias, mil, nenhuma. É o que me faz branca, negra, amarela, prostituta. Filha, mãe, amada, desprezada.

Acabo por concluir que é na segurança da minha caneta que vivo, é no conforto das minhas letras que respiro.

4 comentários:

Codinome Beija-Flor disse...

Bibi,
E você lá precisa de terceira pessoa?? Com esse talentp para escrever, com essa qualidade tem mais é que ser sempre "PRIMEIRA PESSOA".
Ler o que vc escreve me faz perceber mais ainda que se há algo que não sei fazer na vida é escrever.
Beijos

FABULOSO SEU POST.

Bia disse...

:)
Obrigada pelos elogios!
Beijos!

Luiz Roberto R. Filgueiras Filho disse...

Parabéns.
É a única palavra que me vem à cabeça: parabéns.
Você escreve muitíssimo bem e, pelos seus argumentos, concordo que haja essa timidez de publicar todos seus textos. Por mais que façamos algo bem, nunca é bom o bastante para nós.
Bom, eu passei só pra lhe congratular.
Se resolver seguir em frente, você tem futuro, pode apostar.
Temendo ser repetitivo: parabéns!

Bia disse...

Luiz,
muito obrigada pelas palavras de incentivo e elogio.
Fiquei pensando no que você disse, "por mais que façamos algo bem, nunca é bom o bastante para nós".
No meu caso, penso que o que escrevo não é bom o bastante para os outros, fica aquém do que a literatura merece, mas, teimosa como sou, insisto em escrever.
Agradeço a visita e espero vê-lo de novo aqui, no Casco!
Beijo da Bia