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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Hemingway e a guerra

A primeira pessoa que me falou sobre Ernest Hemingway foi minha mãe. Eu era adolescente quando ela me contou que tinha lido O velho e o mar naquela mesma fase de vida, e tinha ficado encantada. Muitos anos mais tarde, minha mãe foi a Key West e saboreou um mojito em homenagem a um dos maiores escritores americanos, mas essa já é outra história.

Hemingway lutou na Primeira Guerra, morou em Paris, escreveu sobre touradas e a Guerra Civil Espanhola, ganhou um prêmio Nobel e se matou com um tiro de espingarda. O resumo é cru, mas creio que assim também foi a vida do autor.

Em In our time, primeiro livro de contos que ele escreveu, publicado em 1924, as histórias são entremeadas por interchapters, textos curtos e independentes.

O "Interchapter VII" diz assim:

While the bombardment was knocking the trench to pieces at Fossalta, he lay very flat and sweated and prayed oh jesus christ get me out of here. Dear jesus please get me out. Christ please please please christ. If you’ll only keep me from getting killed I’ll do anything you say. I believe in you and I’ll tell every one in the world that you are the only one that matters. Please please dear jesus. The shelling moved further up the line. We went to work on the trench and in the morning the sun came up and the day was hot and muggy and cheerful and quiet. The next night back at Mestre he did not tell the girl he went upstairs with at the Villa Rossa about Jesus. And he never told anybody.

Não vou fazer uma análise completa do conto, mas alguns pontos merecem destaque.

Hemingway trabalha com a ambientação a partir de palavras-chave em lugar de descrever o local. “Bombardment” (=bombardeio), “trench” (=trincheira) e “shelling” (algo como rajada de metralhadoras) sugerem que a história se passa durante uma guerra e que o personagem é um soldado.

Percebe-se que, no começo do conto, o personagem, desesperado, implora por misericórdia e reza a um deus a quem não mostra respeito: “jesus” e “christ” estão escritos em minúsculas, o que causa estranheza a principio, mas que logo se explicará. Na parte final, vemos que as promessas do personagem não passaram de palavras de ocasião. Tão logo ele escapa do bombardeio, ele esquece as juras e se entrega ao prazer com uma mulher da Villa Rossa.

O contraste notável entre o começo e o fim do conto acentua-se mais ainda quando destacamos dois segmentos do texto: “getting killed” e “the sun came up”. A idéia de morrer contrapõe-se à idéia de renascimento, simbolizada pelo sol. O dia quente, alegre e silencioso, que nasce após o bombardeio, apaga o terror e o desespero experimentados pouco antes.

Outros textos de Hemingway falam sobre a guerra e a violência, como Adeus às armas (A Farewell to Arms, 1929) e Por quem os sinos dobram (For Whom the Bells Toll, 1940). Os textos também falam do amor, embora sem romantismos, em linguagem simples e clara.

Para quem quiser testar os conhecimentos sobre Ernest Hemingway, tem um teste aqui.

4 comentários:

Simão disse...

Blog bão é assim: faz a gente se moer por dentro. Socrático. Maiêutica! Olha, eu tinha de estar estudando, mas você me obrigou a parar neste ponto. Vamos aos poucos.
Vamos pensar num cara que foi correspondente, durante a Guerra Civil Espanhola, em Madri. Isso, em minha humílima e pouco alicerçada opinião, inspirou não apenas "Por Quem os Sinos Dobram", mas mexeu com sua vida.
Quando acaba a Segunda Guerra, o homem vai para onde? Para Cuba!
A geração dos expatriados em Paris não era flor que se cheirasse. Rue des Pigalles, no pior sentido da palavra, arrisco dizer.
Lutou contra o fascismo, aliado às forças republicanas, declarando-se o autor daqueles textos em jornal de grande circulação; o pai se suicidou, enfim...
Mais um pouco: se V. vai a Gregório de Matos, pense em como ele interpelava Deus. Ele dava ordens a Deus: olha, senhor, você me perdoe, para não perder na sua ovelha a sua glória...
Castro Alves não foi mais brando: Deus, onde estás, que não respondes? Em que estrela te escondes, embuçado nos céus?
Não era incomum o hábito de escritores desafiarem a divindade. Sinceridade? Desafiar com palavras não é nada. Eu não duvido dos relatos de Taylor Caldwel, quando diz que Lucas blasfemava contra Deus nos porões do navio, enquanto curava, sem saber, os doentes. Nem me consta que o verdadeiro "temor" ao criador, tão mal interpretado, tantas vezes, seja o temor que faça o homem assevandijar-se, senão encorajar-se pelo que é certo.
Quanto às promessas de algibeira e arrependimentos posteriores, quando a dor cessa... ah!, isso é a história da humanidade.
De que tinha medo Hemingway? A mãe o presenteou com a arma com que o pai se houvera suicidado... daí a meter uma bala na cara, sei lá.
Adorei suas excogitações.
Este blog... ah, este blog... Tudo!
Lembra que falávamos outro dia sobre personagens e seus conceptores, a mistura entre a realidade e a ficção?
Pãtz!

Bia disse...

Obrigada, mesmo, de verdade. As suas palavras significam mais para mim do que eu consigo expressar.
Um beijo
da Bia

Elaine Dellaflora disse...

Oi Bia, depois do comentário do Simão não me arriscarei a falar nada. Vocês escrevem maravilhas. É muito bom ler palavras bem escritas. Dá vontade de ler mais e mais. Passar dias, noites, semanas, meses, anos lendo sem parar. Ler tudo o que de melhor existe.

Agradeço o Mr. Fart por me indicar seu blog.

Um grande abraço.

Bia disse...

Elaine,
obrigada pelo carinho.

Para mim, ler é essencial, é da literatura que tiro o ar que respiro.

Volte sempre!

Abraços da Bia