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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Para gostar de ler

Leio, um pouco atrasada, o Caderno 2 publicado no sábado passado. Na página 5, encontro a tradução de um artigo de Motoko Rich, do New York Times, que fala sobre como surge o gosto pela leitura. A partir do livro de Alan Bennett, The Uncommon Reader, o artigo faz considerações sobre que tipo de experiência é capaz de transformar uma pessoa comum em um leitor.

O enredo do livro de Bennett celebra o prazer de ler: é uma fantasia sobre o dia em que a Rainha da Inglaterra, ajudada por um dos cozinheiros do palácio, toma emprestado o livro The Pursuit of Love, crítica à aristocracia inglesa das décadas de 1920 e 1930 escrita por Nancy Mitford, em uma biblioteca circulante. O autor descreve como, ao longo da leitura, a Rainha descobre os prazeres mundanos da palavra escrita.

No artigo publicado, Motoko Rich entrevistou algumas pessoas ligadas ao mundo editorial sobre os livros que desempenharam o papel de despertá-los para a leitura. Nomeá-los foi tarefa fácil para os entrevistados, mas justificar o porquê foi bem mais complicado. Como mencionado no artigo, apesar de termos blogs literários, grupos de leitura e discussão, cursos livres e de pós-graduação, o ato de ler é extremamente íntimo e pessoal. Assim, cada livro despertará em cada um de seus leitores sensações as mais diversas possíveis. Já falei aqui como não consegui segurar as lágrimas ao final de A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón, mas emocionei-me da mesma forma em O senhor dos anéis. Vai entender..., ou melhor, como explicar?

A versão brasileira do artigo também traz depoimentos de escritores, dramaturgos, atores e atrizes sobre o livro que instalou o hábito da leitura em suas vidas. Muitos citam não especificamente um título, mas um autor, Monteiro Lobato. Donde concluo duas coisas: a primeira é que, na maioria das pessoas, o hábito da leitura é adquirido quando criança, e a segunda é que ainda não houve quem superasse o mestre do Vale do Paraíba.

Mario Prata, colunista do Estadão, respondeu que o livro que o empurrou para outras leituras e fez dele um Leitor foi Encontro marcado, de Fernando Sabino. Essa declaração me fez lembrar do termo alemão bildungsroman, que quer dizer “romance de formação” ou “romance de aprendizagem”, que se aplica ao livro de Sabino. O termo foi consolidado por Goethe, mas existem inúmeros exemplos desse subgênero narrativo em outras literaturas além da alemã. Não estudei o assunto a fundo para dar aqui as explicações teóricas necessárias, mas, em resumo, é aquele romance que registra as transformações emocionais, psicológicas e de caráter por que passa o personagem principal, em decorrência de acontecimentos do mundo exterior; trata do desenvolvimento interior do personagem. Assim, o bildungsroman não tem traços formais definidos, mas uma temática recorrente.

Encontro marcado também foi, para mim, um livro muito importante. Representou o ingresso na minha fase de leitura adulta, o momento em que deixei a linha demarcatória da literatura juvenil, dos tempos de coleção Vaga-lume, para trás.

Antes de Encontro marcado, porém, foi outro livro de Fernando Sabino que fez com que minhas amigas e eu nos reuníssemos na hora do recreio para fazer comentários e imaginar como nossa vida seria diferente se nosso bicho de estimação fosse como a galinha Fernanda: O menino no espelho. Tenho duas amigas que, até hoje, me chamam de Aibí, corruptela da leitura invertida do meu nome. Quem leu o livro, sabe a origem.

Além de Sabino, Stella Carr e João Carlos Marinho foram decisivos para me tornar a viciada que sou. A medida em que eu crescia, Agatha Christie foi a responsável por deflagrar a minha paixão pela literatura policial, cujo posto máximo é hoje ocupado por Marçal Aquino e Dennis Lehane.

As primeiras cenas de sexo que li foram em livros de Sidney Sheldon, para quem já rendi homenagens aqui. A primeira vez em que percebi como os laços entre mães e filhas são poderosos e frágeis, ao mesmo tempo, foi em O clube da felicidade e da sorte, de Amy Tan. A última vez em que fiquei impressionada com a inevitabilidade e o conformismo de um personagem foi quando li São Bernardo, de Graciliano Ramos, há um ano.

Muitos outros livros foram lidos nesse meio tempo, alguns me afetaram mais, outros nem cheguei a terminar. Minha busca continua, incessantemente, pelo próximo texto em que consiga me enxergar, colocar-me dentro da história, tal qual um personagem.

2 comentários:

Aarão disse...

Delícia! Que sorte vão ter seus filhos, quando você começar a contar causos para eles, indicando boa literatura também!

Bia disse...

Querido amigo,

sinto dizer que tais causos terão de ser destinados à minha recém-nascida sobrinha, aos outros que ainda virão e a quaisquer pares de orelhas que se acomodem ao meu alcance. A filhos? Penso que não. Ou como já disse Brás Cubas, não transmitirei a ninguém o legado da nossa miséria.

Obrigada pela visita!