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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Reflexões na sala de espera do médico

9h50.
"Será que é possível uma pessoa feliz escrever bem, assim, boa literatura? Essa gente que não tem problema, que está feliz com o que tem, satisfeita no casamento, que tem filhos comportados, goza de boa saúde. Sobre o que uma pessoa dessas falaria? Só posso imaginar que escrevesse um daqueles romances água-com-açúcar ou belo thriller imprevisível. O primeiro, porque refletiria a vida que leva, em que as coisas estão nos eixos e há pouco espaço para surpresas. O segundo, justamente pelas razões opostas, porque seria a única forma de trazer caos para a ordem cotidiana, de acordar a pasmaceira do dia-a-dia e fazer sentir, provocar emoções, que, de outra forma, o autor não sentiria. É preciso ter algum desvio psicológico, alguma tara, obsessão, idéia fixa, algum interesse secreto, para escrever literatura? Na verdade, todos possuímos tudo isso; necessário mesmo é ter coragem de desnudar nossas fraquezas e envolvê-las em papel e letras e palavras. Acho que gente feliz não escreve porque não precisa pensar na própria vida, não se depara com dilemas, não tem de tomar decisões difíceis, tão difíceis que a cabeça fica imaginando inúmeras soluções alternativas para não encarar a realidade.
Quando eu era adolescente, escrevia muito mais, embora nem sempre com qualidade. A maioria das vezes, verdade seja dita, com nenhuma qualidade. mas eu escrevia, tinha muito mais imaginação (ou disposição) para fazer de conta, criar vidas que não eram minhas, fazer nascer relações que não me pertenciam. Hoje, é muito difícil me dissociar da minha própria vida, da minha personalidade, do meu personagem. Sinto que todo personagem que eu criar será uma versão alternativa de mim mesma, e a chance de as pessoas perceberem isso me apavira, a idéia de expor a mim e minhas psicoses, paranóias, essa realidade que só existe para mim, é aterrorizante."

10h20.
"A história da minha vida. Entro e saio de ortopedistas desde que me lembro, Meu pé esquerdo, meu joelho direito, um cotovelo que não lembro qual é, a lombar. Já tirei tanta radiografia que conseguiria juntar todas e montar uma chapa de corpo inteiro, uma versão gótica de um book de modelo e manequim. Tenho a impressão de que meus ossos não fazem parte do mesmo conjunto, como várias caixas de Lego que se misturaram: a do circo com a do cowboy com a do astronauta com a do bombeiro. Quanto tentamos encaixar o chapéu de um na cabeça de outro, até serve, mas fica capenga."

10h35.
"Alguém já reparou como as pessoas adoram parecer super-heróis? Adoram dizer que dormem tarde e acordem cedo, que não precisam de oito horas de sono, que mal tem tempo de almoçar, que vão de São Paulo a Campinas em meia hora, que já foram multados três vezes na Imigrantes, que estão prestes a perder a carta, e achando bonito tudo isso. Que o celular não pára de tocar, que trabalha 15, 16 horas por dia, que não tem tempo de ir ao cinema, que não podem se dar ao luxo de ficar doente. Tudo isso, elas dizem com uma pontinha de orgulho, já repararam?"

10h41.
"Deus me guarde e me conserve para que eu morra do coração, para que eu mantenha minhas faculdades mentais e minhas habilidades físicas até o fim."

2 comentários:

Iphy disse...

Acho que falta para a gente, miga, perder o medo. Confundir autor e obra, até o autor confunde. Fernando Pessoa assumiu e escandiu seus heterônimos. Nem Deus fez isso. Se você se soltasse mais, escreveria os seus textos e nos daria o prazer da leitura.
Já pensou em "Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde" como prática de Stevenson? E o nome não esconde algo? Je (Francês - eu) Kill (Inglês - matar). Hide (esconder). No Y, a conexão entre ambos. Mas só no Y. Imagine então "eu mato e mr. (3ª pessoa) esconde". Ou então eu mato e escondo. Escondo o cadáver? Escondo-me? Mato quando me escondo? Escondo-me sob a clâmide do que mata? Mato sob a túnica do que se esconde? Escondo o que mata? Ora, mas aos poucos eu mato o que se esconde. Quem sou eu? O que mata? O que esconde? Os dois? E o autor, com isso tudo?
Para escrever, acredito, é necessário largar as peias, sair do jugo da crítica e, principalmente, da autocrítica. Quem é severa demais consigo mesma, como eu sou, como você é, dificilmente dará a cara a tapa.
Quanto aos super-homens, o Über existe dentro de cada um de nós, e cada um o expõe ao seu jeito. Mas todos têm pavor de kriptonita, não têm? O grande problema vem quando a gente se "hyde" e "kyll" a própria alma.
Assuma os seus heterônimos, finque a pena no coração e escreva!
Da amiga, sempre

Bia disse...

Iphy, darling,
tenho uma epifania a cada comentário seu.
Doravante, chamarei-a tão-somente Oráculo, ou Pitonisa, como preferir, tal é a inspiração que você me dá.
Beijos da amiga.