Há alguns meses, Contardo Calligaris participou de uma sabatina na Folha de S. Paulo. Entre dezenas de coisas bacanas, ele falou que não adianta só tomar antidepressivos, é preciso fazer psicoterapia, ou seja, a palavra cognitiva é essencial para que os efeitos do remédio sejam potencializados e eficazes.
Em outro momento, ele diz que não podemos simplesmente tomar pílulas para tudo, para rir, para dormir, para esquecer. É lógico que uma pílula evita a tristeza, mas será que também não evita a alegria completa, plena, absoluta? Será que, da mesma forma que nos protegemos da depressão, não ficamos também privados da euforia?
Vale a pena assistir a Calligaris falando sobre o comportamento humano:
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Postado por Bia às 06:41 1 tartareaders
Tartatags:
relacionamentos
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Desconstruindo Harry
De tempos em tempos, recebo a programação do Casa do Saber por e-mail. Há menos cursos de literatura do que eu gostaria e os preços são um pouco mais altos do que eu poderia pagar, ma va bene, confesso que alguns temas propostos são bastante interessantes. Como o desse curso que começa amanhã:
Sexo: sintoma, ciência e filosofia - Os novos modos do sexo
5 Ago 1. A desconstrução psicológica da sexualidade: sexualidade como sintoma
12 Ago 2. A desconstrução social da sexualidade: o conceito de gênero e o fim do masculino e feminino
19 Ago 3. A desconstrução biológica da sexualidade: o animal no homem e na mulher
26 Ago 4. O mercado do amor e a liberdade sexual: O medo do homem, a solidão da mulher
Fico pensando: qual a necessidade de se desconstruir tudo, de se analisar tão detalhadamente algo que deveria ser tão simples e tão instintivo como o sexo?
Acho que eu precisaria fazer o curso para saber...
Postado por Bia às 07:58 1 tartareaders
Tartatags:
cursos,
relacionamentos
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Memórias de uma gueixa
Uma vez falei sobre as coisas que as mulheres tem de fazer para cultivar um relacionamento em um post, confesso, um tanto machista.
Postado por Bia às 07:35 0 tartareaders
Tartatags:
mulheres,
relacionamentos
terça-feira, 1 de julho de 2008
Ele, de novo
Xico, ah, Xico...
A ARTE DA CANTADA PERMANENTE -O REMAKE
A cantada, amigos, é como a revolução de Mao Tse-Tung, tem que ser permanente.
Existem mulheres que a gente canta no jardim da infância para dar o primeiro beijo lá pelos treze, quatorze.
Mas é necessário que a cante sempre, não aquela cantada localizada, neoliberal e objetiva, falo do flerte, do mimo, do regador que faz florescer, como numa canção brega, todos os adjetivos desse mundo.
A cantada de resultado, aquela imediata, é uma chatice, insuportável, se eu fosse mulher reagiria com um tapa de novela mexicana, daqueles que fazem plaft!
A boa cantada é a cantada permanente.
E mais importante ainda depois que rolam as coisas, depois que acontece, aí a cantada vira devoção, oração dos pobres moços a todas elas.
Porque cantar só para uma noitada de sexo é uma pobreza dos diabos, qualquer um animal o faz.
Porque cantar, à vera, é cantar todas e não cantar nenhuma ao mesmo tempo.
Explico: é espalhar pacientemente a devoção a todas as mulheres como quem espalha sementes nos campos de lírios.
Mesmo que elas digam, com aquele riso litografado na covinha do sorriso, que você diz isso para todas.
E claro que para cada uma dizemos uma loa, fazemos uma graça, não repetimos o texto, o lirismo, o floreado.
Porque amamos mesmo as mulheres.
Cantemos indiscriminadamente, e que me perdoe o velho e bom Vinícius de Moraes, mas cantemos sobretudo as ditas feias, esse conceito cruel e abstrato de beleza. Elas merecem, até porque as feias não existem, nunca conheci nenhuma até hoje.
Não por sermos generosos, piedade, ou algo do gênero... É que a dita feia, quando bem cantada, vira a superfêmea, para lembrar a bela pornochanchada com a Vera Fischer.
A cantada permanente e indiscriminada é irresistível, quando você menos espera, acontece o que você tanto sonhava.
Sim, tem que ter o cuidado para não ser simplesmente um chato que baba diante do melhor dos espetáculos, a existência das mulheres.
Ter que cantar sempre a mesma mulher e parecer que está apenas de passagem, que o estribilho é sempre novo, nada de larararás que mais parecem refrões do Sullivan e do Massadas, lembram dessa dupla de músicas chicletosas?
Ah, digamos que você cantou a Sônia Braga ainda naqueles tempos em que Gabriela subiu com aquele vestidinho no telhado –a cena mais quente da teledramaturgia brasileira até hoje- e e continuou cantando, sempre, sutil e sempre, e agora ela, passados tantos calendários, se comove e resolve recompensá-lo! Vai ser lindo do mesmo jeito, não acha? Na tela do nosso cocoruto vai passar o videotape de todos os desejos antigos e despejados no ralo pela morena cravo & canela.
Postado por Bia às 08:37 3 tartareaders
Tartatags:
amor,
crônicas,
mulheres,
relacionamentos
sexta-feira, 20 de junho de 2008
O que as mulheres esperam do amor
É segunda-feira, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista 509, esquina com a R. Manoel da Nóbrega, ao lado do Metrô Brigadeiro), a conversa sobre as mulheres e o amor.
O assunto me interessa muito, observadora da psiquê humana que pretendo ser.
Ontem, após o bate-papo com Nelson de Oliveira na Livraria Sobrado, eu estava no Bar do Giba com duas das mulheres que mais respeito neste mundo: minha mãe e minha madrinha.
O que conversávamos era justamente o que quer a mulher de hoje. Longe de nós querermos ser especialistas no assunto. Apenas trocávamos impressões sobre o que vemos por aí.
Todo mundo quer um amor. Ponto. Pacífico, aliás. Nunca ouvi ninguém dizer com convicção que quer/gosta/pretende ficar sozinho. Lógico que, às vezes, o outro é tão détraqué que é melhor ficar sozinha, mas essa é outra história. Muito bem. Então, você se esforça, dá a cara para bater, faz a trezena de Santo Antônio e, finalmente, o seu amor chega e você fica toda feliz. E depois?
Depois, você não sabe o que fazer. Passou tanto tempo se preparando para o dia da chegada do amor, mas não pensou no que fazer no dia seguinte. Gente, relacionamento dá trabalho, requer dedicação (não se iludam, não tive tantos homens assim, não sou nenhuma expert, falo apenas sobre o que vivencio).
Tem de mimar o bofe, tem de se arrumar. Tem de aguentar os gases do fofo, os porres do fofo. Tem de ser simpática com a mãe do amado, com o chefe, com a secretária, com a estagiária. Tem de agüentar o churrasco com os amigos no fim de semana, o jogo de futebol na quarta-feira, o happy hour com o departamento comercial na segunda-feira.
Tem de dar duro no trabalho. Tem de suportar as manias do chefe, as broncas, as amantes do chefe. Tem de sorrir para a gerente de Compras, para a tia do café, para o contínuo, para a assessora de Imprensa, para o manobrista do estacionamento.
Tem de ir ao supermercado, à farmácia, ao sacolão, posto de gasolina, à floricultura. Comprar orgânicos, reciclar lixo, economizar água.
O que eu acho (e já vou parando o texto por aqui antes que me atirem pedras por ser machista ou me mandem queimar sutiãs e me tornar feminista) é que não dá para ter tudo. Ou melhor, não dá para cuidar de tudo com a mesma dedicação. Não dá para ser executiva top/esposa amorosa/mãe exemplar, tudo ao mesmo tempo, tirando nota 10 com louvor.
Mulheres como a minha mãe e minha madrinha fizeram uma escolha: família em lugar da carreira. Se estavam certas ou não, eu não sei. O que sei é que elas são tão bem-sucedidas quanto o Steve Jobs. Pode parecer radical, mas, de todas as mulheres entre 30 e 45 anos que conheço, eu conto nos dedos da mão (esquerda?) do Lula quantas têm o respeito dos filhos, a admiração do marido e a auto-estima no lugar certo.
Postado por Bia às 07:53 0 tartareaders
Tartatags:
cotidiano,
mulheres,
relacionamentos
domingo, 20 de abril de 2008
Crescer é perigoso
Quando eu era criança, meu pai dizia que “se é um lugar que não existe” (é o título de um livro); meu namorado diz que “na vida, o se não joga”. Apesar de os dois serem as figuras masculinas mais importantes da minha vida, as que mais respeito e admiro, ouso discordar.
Perguntar “e se?” é irresistível. E se eu tivesse cursado Letras em vez de Direito? E se eu não tivesse mudado de carreira? E se eu tivesse ido àquela festa? E se eu tivesse ficado em casa? Imaginarmos uma realidade alternativa à nossa é viciante.
O tema do universo paralelo já foi abordado algumas vezes pelo cinema, como em Homem de Família (The Family Man, 2000), com Nicholas Cage e Téa Leoni, ou Click (2006), com Adam Sandler.
O meu preferido, porém, é De Caso com o Acaso (Sliding Doors, 1998), com Gwyneth Paltrow e John Hannah. No filme, a questão do “e se?” é apresentada de forma charmosa e elegante. Depois de ser mandada embora, Helen pega o metrô para voltar para casa. Na primeira situação, ela consegue entrar no primeiro trem que passa e, ao chegar em casa mais cedo, flagra o namorado com outra. Na segunda situação, ela perde o trem e continua sua vidinha ao lado do namorado cafajeste. Conforme o filme avança, acompanhamos a história das duas Helen e os desdobramentos que advieram do simples fato de ter entrado ou não no metrô.
Claro que, se passarmos o tempo todo avaliando quais são os possíveis desdobramentos de cada um de nossos atos e nossas decisões, é bem provável que enlouqueçamos antes do término da primeira semana. E, pior do que isso, estaríamos sufocando algo que é essencial: nosso instinto.
Falei aqui sobre como é difícil tomar certas decisões, mas acho que racionalizá-las ao extremo não é a solução. É mais fácil, penso eu, encararmos as conseqüências de uma decisão desastrada se ela tiver se baseado em nossa intuição em vez de em qualquer argumento racional. Ora, a racionalidade, por definição, não deveria nunca estar errada, ao passo que à nossa emoção sempre é permitido errar, arrepender-se, descabelar-se, conformar-se, esquecer, perdoar.
Outra palavrinha de definição fácil, mas significado complexo, é escolha. De braços dados com decisão, escolha assombra a mente dos incautos com possibilidade com que, nem sempre, conseguimos lidar.
E aqui chegamos (finalmente) ao gatilho desse post, o filme Um Beijo a Mais (The Last Kiss, 2006), com Zach Braff.
(Explicação rápida: gatilho é uma metáfora para qualquer coisa que dispare um processo ou provoque uma reação específica. Sabe, aquilo que acontece quando você ouve uma música e lembra de alguém ou quando você vê uma tartaruga e pensa em mim :). Será que eu precisava mesmo explicar o que gatilho significa? Talvez não, mas, sei lá, não consigo evitar ser meio professoral. Presunção, eu sei. Então. Ultimamente o gatilho para muitas das minhas reflexões tem sido o cinema. Como vocês podem perceber. Mas, divago. De volta ao texto.)
O longa é uma refilmagem do italiano L’Ultimo Bacio (2001) e manteve o enredo do filme europeu. A abordagem é diferente, lógico, mas também funciona. A história fala de um homem de 29 anos que tem uma crise quando percebe que terá de entrar de vez na vida adulta: sua namorada está grávida. Tem uma resenha minha sobre o filme aqui, se você quiser ler.
Bom, o fato é que Michael, o protagonista, fica apavorado quando percebe que sua vida parece estar inteiramente planejada, sem espaço para surpresas, antes mesmo de ele completar 30 anos. Em suas reflexões, Michael se lembra de que, quando era criança, ele imaginava como seria sua vida aos 30 e o cenário era exatamente o que ele está vivendo. Tudo o que ele imaginava, aconteceu. Ainda assim, ele não se sente seguro o suficiente para se comprometer e tornar-se adulto. Ele se ressente de ter de abandonar um mundo de possibilidades por ter de optar por uma única certeza.
E aí eu pergunto: dá para saber se é uma certeza mesmo? Dá para saber se você fez a escolha certa quando decidiu se casar com aquele namorado que não era bem o que você imaginava, mas que se tornou um bom pai? Dá para saber se você teria sido mais feliz se tivesse feito uma viagem pela Europa antes de entrar na faculdade e ser atropelado pela vida?
Resposta: não dá. O segredo – quer dizer, o meu segredo, o que funciona para mim, já que não sei se a receita desandaria em outra cozinha – é ser fiel a seus princípios e sempre, sempre, ouvir seu coração, não dar ao dinheiro mais importância do que ele merece e agir conforme sua intuição.
Parece trecho de livro de auto-ajuda. Parece filosofia barata. Parece algo que Paulo Coelho falaria. Não importa, tem dado certo há alguns anos e não penso em mudar.
Enquanto a gente pensa nisso, vale a pena ouvir a música-tema de Um Beijo a Mais, "Chocolate", da banda Snow Patrol.
Chocolate
(Snow Patrol)
This could be the very minute
I'm aware I'm alive
All these places feel like home
With a name I'd never chosen
I can make my first steps
As a child of 25
This is the straw, final straw in the
Roof of my mouth as I lie to you
Just because I'm sorry doesn't mean
I didn't enjoy it at the time
You're the only thing that I love
It scares me more every day
On my knees I think clearer
Goodness knows I saw it coming
Or at least I'll claim I did
But in truth I'm lost for words
What have I done it's too late for that
What have I become truth is nothing yet
A simple mistake starts the hardest time
I promise I'll do anything you ask...this time
Postado por Bia às 17:21 7 tartareaders
Tartatags:
amizade,
amor,
cinema,
cotidiano,
música,
relacionamentos
segunda-feira, 14 de abril de 2008
O quebra-cabeça e o divã
Então.
Ontem, eu estava no meu escritório em casa, ouvindo música e tentando arrumar a bagunça que fiz em meu IPod. Porque já eram quase 9 horas da noite, meus neurônios já estavam pedindo arrego e resolvi deixar o ITunes de lado.
Para passar o tempo, resolvi experimentar um porta-puzzle que comprei e tirei um jogo de 500 peças do alto do armário. Aqui, cabe um esclarecimento: eu acho quebra-cabeças profundamente relaxantes. Tenho o costume de montá-los quando estou brava ou chateada, por exemplo, para que minha cabeça se ocupe com outra coisa; em pouco tempo as razões do meu desconforto não parecem mais tão importantes. Nada como a passagem do tempo, não?, mesmo que seja apenas algumas horas.
O jogo que escolhi, já o tenho há anos e estou acostumada a montá-lo, motivo porque é sempre minha primeira escolha. Quando a situação é mais grave, vamos dizer uma briga amorosa ou uma crise existencial, eu escolho jogos maiores. Da última vez, levei duas semanas montando um mapa mundi antigo de 3000 peças. A briga (ou a crise, nem me lembro mais) já tinha sido resolvida muito antes de eu encaixar a última peça.
Mas o fato é que ontem, por volta das 9 da noite, eu estava sentada no sofá do escritório montando um quebra-cabeça. Tinha ligado o rádio e ouvia os últimos comentários sobre a rodada dos campeonatos estaduais, dado que a estação sintonizada era a CBN. Aqui cabe outro esclarecimento: o rádio do escritório está sempre sintonizado na CBN. Preferência, você vai perguntar? Sim; prefiro-a a BandNews ou a outra rádio de notícias qualquer. Mas há mais que isso. Meu aparelho não tem dial digital, o que dificulta uma sintonia precisa e sem chiados. Junte a isso as milhões de rádios pirata que estão no ar e voilá: se eu mexer no dial, nunca mais consigo achar a rádio novamente. Já tentei, acredite, mas não deu certo. Eu ligava o rádio e uma voz cavernosa dizia que Satanás está em cada esquina, esperando que eu caísse em tentação para me levar para o fogo dos infernos. Passei três semanas olhando por cima do ombro cada vez que ia atravessar a rua, com medo de que Lúcifer em pessoa fosse me dar o bote a qualquer momento. Finalmente, consegui, em uma noite clara e sem lua, localizar a CBN. Desde então, fica assim, eternamente ligado na rádio que toca notícias, e as únicas vozes que ouço são de Heródoto Barbeiro, Milton Jung e Adalberto Piotto. Algumas delas atiçam minha imaginação e curiosidade, mas esse é outro assunto.
De volta à história (porque a essa altura você nem se lembra mais do que eu estava falando).
Eu dizia que estava ouvindo rádio por volta das 9 da noite. Assim que terminou a rodada esportiva, o locutor anunciou que o próximo programa era o do psicoterapeuta Flávio Gikovate. Pensei em desligar o rádio, mas mal conseguia me mexer, com aquele puzzle no meu colo e tudo o mais. Deixei o programa seguir em frente.
Meio distraída, ouvi o anúncio do tema: por que as pessoas repetem determinado tipo de escolha afetiva, principalmente as inadequadas? A partir daí, Gikovate passou a falar sobre baixa auto-estima e a atender telefonemas de ouvintes, e minha atenção já estava presa às palavras do especialista.
Minuto após minuto, o rosário de problemas que chegavam pelo telefone e por e-mail trazia diversas dúvidas, a maioria sobre relacionamentos amorosos. Um homem apaixonado por uma colega de faculdade com metade da idade dele; outro que sabe que tem baixa auto-estima, mas não sabe o que fazer para mudar e agrava ainda mais sua condição porque só se relaciona com prostitutas.
Comecei esse post com a idéia de falar sobre as dificuldades de relacionamento, sobre as pessoas que complicam ainda mais algo complexo como o amor, sobre como alguns são egoístas e outros têm medo de ser feliz no amor. Pensei em falar sobre tudo isso, mas vou deixar para outra ocasião. O texto já está muito longo, acabei fazendo digressões, como sempre.
No lugar, deixo o áudio do programa No divã do Gikovate de ontem, que me fez companhia no final do meu domingo. Quem quiser ouvir, pode refletir sobre o assunto para, quem sabe, retomarmos a discussão outro dia.
Postado por Bia às 15:17 3 tartareaders
Tartatags:
cotidiano,
relacionamentos
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Conquistar sempre, perecer nunca!
Então, você fica pensando, eu vou encontrar um cara legal, vou encontrar um cara legal, um mantra entoado no momento em que você acorda e olha para o criado-mudo sem foto; quando vai tomar banho e tem uma só toalha pendurada no gancho, e até na hora de se vestir, a calcinha branca de algodão, meio amarelada, e você percebe que há tempos não compra roupa de baixo porque, simplesmente, não tem para quem mostrá-la.
Você se mantém firme nessa história de pensamento positivo. Já te falaram que é uma ferramenta poderosíssima, você acredita. Lembra-se de todos aqueles livros da lista dos mais vendidos, milhões de pessoas não podem estar erradas. Alguém te indica uma cigana, você vai e ela te diz que o que é seu está guardado. Você, no íntimo, espera que ela não esteja falando dos dólares que sua avó te deu no último aniversário e que estão escondidos junto com as calcinhas que você nunca usa. Bom, os dólares você também nunca usa, porque ainda não se animou para gastá-los em uma viagem solitária.
Seu cabeleireiro fala sobre um incenso para espantar maus espíritos. Uma amiga quer te apresentar um colega de trabalho do primo da mulher do chefe dela. Sua mãe acha que você tem de mudar de emprego; você não entende o que uma coisa tem a ver com a outra, mas como ela sempre reclamou do seu emprego, você não dá ouvidos. O garçom do bar que você freqüenta te dá a dica, olha, aquele cara ali no canto gostou de você, ele é separado, mas é gente boa, quer dizer, separado não, mas é como se fosse, a mulher dele é uma chata; você agradece e pede outra caipirinha, anotando mentalmente para deixar uma boa gorjeta, ou mudar de bar. Seus amigos já se acostumaram a te ver sozinha, mas eles são legais, gostam de você, se preocupam com o seu bem-estar, não ficam comentando sobre sua solidão pelas costas, eles até pedem para que você cuide dos filhos deles durante o fim de semana na praia, não é ótimo?
Um dia, você resolve fazer uma lista de tudo o que você gostaria que um homem fosse, tivesse, falasse, fizesse. Listas são uma mania, você não consegue se livrar delas, desde criança é fissurada em listas. Fazia listas das novelas que já assistiu, dos livros de que tinha gostado, dos atores que achava bonitos. Lembra-se dos atores e começa a escrever. Você não pede o corpo do Vin Diesel, mas pede que o seu eleito – coisa cafona, chamar de eleito, mas você ainda não consegue falar namorado, na-mo-ra-do, não por enquanto – seja um homem forte, bom caráter, seguro de si e que a respeite. Você não pede o charme do Kiefer Sutherland, mas pede que ele tenha bom humor e carisma. Você não pede a inteligência do Einstein, mas pede que ele saiba, pelo menos, quem foi Einstein. Palavra por palavra você descreve – em uma atitude meio patética, meio adolescente – um ser mitológico, um verdadeiro Ulisses e reza para que ele apareça.
Sim, reza. Para Zeus e os resto do Olimpo, que liberem um daqueles semideuses para você. Para Buda, que o seu caminho de iluminação seja à luz de velas, com champanhe, morangos e chocolate, dentro de quatro paredes. Para Shiva, que transforme a sua existência sem graça em uma vida plena, trazendo alguém a quem você possa se dedicar. E para Santo Antônio, ele mesmo, o infalível. Você faz a trezena, acende velas azuis, vai até a casa dele visitá-lo.
Três meses depois, todo o seu esforço é recompensado e seu Ulisses aparece. A luta acabou, Tróia ficou para trás. Todos aqueles fulanos em pele de cavalo que apareceram diante de seu portão se foram, restou apenas o herói.
Seis anos mais tarde, quando tudo parecia perfeito, o que você faz? Atende o telefone na hora que não poderia. E mais, não desliga na hora que deveria.
Irônico ou o quê?
Postado por Bia às 12:13 2 tartareaders
Tartatags:
crônicas,
relacionamentos
sábado, 23 de fevereiro de 2008
O carapuceiro
Inspiradíssimo, como sempre, Xico Sá coloca um sorriso no meu rosto e muitas idéias na minha cabeça com dois textos publicados aqui.
Será que só eu acho que ele é o máximo?
Postado por Bia às 11:26 4 tartareaders
Tartatags:
crônicas,
relacionamentos
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Sobre Adrian Lyne
Rever filmes sempre acrescenta algo novo à impressão que eles me causaram quando os vi pela primeira vez. Por exemplo, rever os três primeiros episódios de Guerra nas Estrelas depois de assistir os três últimos – em ordem de filmagem, bem entendido – mostra como os efeitos especiais evoluíram desde 1977. Ou rever Uma secretária de futuro, com Melanie Griffith e Sigourney Weaver, e se dar conta de que, ainda bem, os anos 80 passaram e, com eles, os cabelos, as roupas e toda a paranóia yuppie.
Pois bem, hoje à noite eu revi Proposta Indecente, dirigido por Adrian Lyne e estrelado por Robert Redford, Demi Moore e Woody Harrelson. Todos vocês lembram do filme. Sobre ele, farei apenas dois comentários: primeiro, a história é clichê; segundo, a história é inverossímil. Clichê, porque a história de pessoas perfeitinhas que são tentadas pela ganância ou luxúria não é novidade. O Advogado do Diabo, Ligações Perigosas, entre tantos outros, falam sobre a impossibilidade de resistir à tentação, seja do sexo, seja do dinheiro. Inverossímil, porque na vida real o proponente se pareceria mais com o Olacyr de Moraes do que com Robert Redford. Mas não foi nada disso que chamou minha atenção.
Adrian Lyne dirigiu, segundo o site IMDB.com, nove filmes. Não tenho idéia de como são os dois primeiros, mas esses são os outros sete:
Flashdance - em ritmo de embalo (Flashdance, 1983)
9 ½ Semanas de Amor (9 ½ Weeks, 1986)
Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987)
Jacob’s Ladder (1990) [eu assisti, mas não lembro o título em português. É um filme meio esquisito, com Tim Robbins. Não gostei.]
Proposta Indecente (Indecent Proposal, 1993)
Lolita (idem, 1997)
Infidelidade (Unfaithful, 2002)
O que me ocorreu, enquanto eu revia Proposta Indecente, foi que parece que Adrian Lyne está sempre buscando causar polêmicas, mas talvez a intenção dele não fosse somente essa. Talvez ele queira fazer com que as pessoas pensem e repensem as relações entre homem e mulher, mas não consiga. Acontece, porém, que ele é tão incompetente e tão clichê que seus filmes ficam no meio do caminho entre o erótico e o dramalhão. As pessoas assistem Adrian Lyne para pensar (ou fazer) sexo, mas preferem assistir Woody Allen para inspirar-se a discutir relacionamentos (ok, talvez Woody Allen seja um pouco neurótico demais, mas vocês entenderam o que eu quis dizer).
As mulheres nos filmes de Adrian Lyne são, quase sempre, desajustadas. Alex (Glenn Close, em Atração Fatal) não suporta levar um fora; Diana (Demi Moore em Proposta Indecente) é quem instiga o marido a aceitar o acordo milionário; Lolita (Dominique Swain no filme de mesmo nome) é uma criança, mas cheia de vontades de toda natureza; e Connie (Diane Lane em Infidelidade), apesar de ter realizado o sonho americano, não hesita em pular na cama do primeiro francês charmoso que aparece em um dia de ventania.
Curiosamente, é justamente nas mulheres que está a única coisa boa desses filmes. Glenn Close e Diane Lane foram indicadas ao Oscar. A cena em que Connie (Diane Lane) está no trem, voltando para sua vidinha suburbana depois de uma tarde com o amante, é uma das mais incômodas que já vi. Muito emocionada, ela se divide entre as lágrimas e o riso, entre o remorso e o prazer. A cena é muito bonita; não à toa foi escolhida para passar no telão durante a cerimônia do Oscar. Mesmo assim, o filme é ruim.
E os homens? Dan (Michael Douglas em Atração Fatal) é metido a garanhão e acha que consegue tirar de letra o fato de trair a mulher, desde que seja uma vez só. David (Woody Harrelson em Proposta Indecente) é metido a bonzinho e acha que consegue tirar de letra a traição da mulher, desde que seja por dinheiro e uma vez só. Humbert (Jeremy Irons em Lolita) é fraco e manipulado pela ninfeta. E Ed (Richard Gere em Infidelidade) é tão simplório que não vale a pena nem comentar.
Traição é um tema constante na filmografia de Adrian Lyne, apesar de mal abordado. Por isso, encerro esse post com dicas de dois filmes que, na minha opinião, foram muito mais felizes ao abordar o tema:
Por uma Noite Apenas (One Night Stand, 1997), com Wesley Snipes, Nastassja Kinski e Robert Downey Jr. – tem gente que odeia, mas eu adoro esse filme.
Closer – Perto Demais (Closer, 2004), com Julia Roberts, Clive Owen, Natalie Portman e Jude Law – de novo, tem gente que detesta, mas eu gosto muito. Já até me inspirei nesse filme para escrever um parágrafo.
Quem tiver sugestões de outros filmes sobre o assunto, pode mandar um e-mail, se quiser. Farei atualizações com os títulos que eu receber.
E.T.(1) Como vocês podem perceber, voltei de viagem mais cedo do que eu disse aqui.
E.T.(2) Se você leu até aqui, talvez queira ler sobre fidelidade em outro post.
Atualização (7/2/2008): Beija-flor sugere Jornada da Alma, baseado na correspondência entre Freud e Jung, sobre uma paciente chamada Sabina. Ela foi a primeira paciente em quem Jung aplicou as teorias do mestre Freud. Médico e paciente se tornam amantes e ela acaba por se tornar psicanalista também. Não vi o filme, mas a história parece muito interessante.
Postado por Bia às 01:19 4 tartareaders
Tartatags:
cinema,
filmes,
relacionamentos
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
A escrita de mim 07
Encontro
Venho de uma terra em que os homens andam a pé, e as mulheres, a cavalo.
Venho de um tempo em que nos enamorávamos de tudo o que era poético; de uma casa em que as paredes eram tão grossas que os segredos não as podiam transpassar.
Venho de uma escola em que as aulas eram abertas, os cursos eram completos e os pensamentos eram livres.
Venho de uma cozinha em que os sabores não tinham nomes, eram apenas sensações que explodiam em nosso juízo, nos faziam humanos.
Venho de um amor sofrido mas triunfante, breve mas constante, único mas efêmero.
Venho de uma gota de chuva que um dia molhou os teus cabelos quando voltavas para casa e ele não te seguiu.
Venho do único raio de sol que conseguiste enxergar quando, enclausurada, achavas que a vida não valia mais a pena.
Venho do alto dos prédios que cercam a tua casa, venho rente ao chão do jardim da praça onde passeias. Venho de um mundo em que nada mais existe.
Venho pedir-te que saias comigo, venho implorar-te que sejas minha.
Venho buscar-te para um passeio, venho salvar-te dos olhares que se fecham quando passas.
Venho roubar-te para devolver-te a alma, venho cantando para calar-te.
Venho sorrindo para que te lembres de que partirei um dia.
Postado por Bia às 22:30 4 tartareaders
Tartatags:
amor,
meus textos,
relacionamentos
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
O casamento no divã
Recebi um e-mail da Casa do Saber, maldosamente chamada DaslUSP, com a divulgação de um dos cursos livres que serão oferecidos na unidade Jardins a partir do dia 12 de fevereiro.
O curso chama-se "Psicologia: a felicidade no casamento de hoje" e propõe analisar o casamento à luz da psicanálise, utilizando aspectos do cotidiano para exemplificar possíveis conflitos maritais e discutindo soluções para a busca de um convívio pacífico.
Das duas, uma: o curso pode se transformar em um gigantesca terapia em grupo, em que cada um quererá obter a resposta fácil e imediata para o seu problema; ou o palestrante conseguirá realmente fazer com que seus alunos reflitam sobre seu relacionamento e tenham a iniciativa de consertá-lo.
Algumas considerações sobre amor, casamento e fidelidade, estão aqui.
Postado por Bia às 22:14 3 tartareaders
Tartatags:
cursos,
relacionamentos
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Abaixo a dieta 2
Já falei diversas vezes, aqui no Casco, sobre gastronomia. É uma das minhas paixões, a que pouco tenho me dedicado, menos por falta de cobaias para experimentar minhas incursões culinárias e mais por falta de tempo, já que passo doze horas por dia escrevendo.
Falei sobre chocolate, sobre panetone com champagne, falei sobre como acho abominável e desprezível fazer dieta. Não importa o quanto eu escreva sobre o assunto, dificilmente abordarei-o com tanta delicadeza e precisão quanto Xico Sá, em seu post de 20 de janeiro:
PARA REABRIR O APETITE DAS MOÇAS
Nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface ou rúcula.
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à milanesa, um chambaril, um torresmo decente, uma costela no bafo.
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida, abafa o caso.
Toda preocupação feminina agora está voltada para a estatística das calorias, as quatro operações da magreza absoluta, ditadura da tabuada, lero lero, vida noves fora zero. É como se todas fossem posar para a ''The Face'' do dia para a noite, fazer bonito nos editoriais de moda, vôte! Mal sabem que isso não tem, para homem que é homem, quase nenhuma importância.
François Truffaut, o francês cineasta, padrinho sentimental deste cronista, já alertava, em depoimentos registrados em suas biografias, o valor insuperável das mulheres normais e o seu belo mundo de pequenas imperfeições. Tudo sob medida das nossas taras sem réguas, sem balanças, sem trenas.
Além do prazer de vê-las comendo, coisa mais linda, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, cricris, chatas, dão mais trabalho na rua, em casa, no bar, pense no barraco!
Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.
Às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos, ao sanduíche de mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado, que capricha na carne e incentiva os seus pecados todos. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste...O importante é reabrir o apetite das moças, pois homem que é homem, como diz meu velhíssimo mantra, não sabe sequer - nem procura saber - a diferença entre estria e celulite.
Escrito por xico sá às 21h46
Postado por Bia às 09:27 4 tartareaders
Tartatags:
cotidiano,
gastronomia,
relacionamentos
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Da fidelidade

(A imagem que ilustra este post foi retirada do blog Escritório de criação)
Leio o seguinte trecho de Humano, demasiado humano, do Nietzsche, inserto em O amor: receitas práticas e sábias, coletânea de textos filosóficos sobre o mais buscado dos sentimentos, editada pela Landy:
É possível prometer atos, não sentimentos. A promessa de amar sempre alguém significa portanto: pelo tempo que te amar, eu o testemunharei a ti por atos de amor; se eu deixar de te amar, nem por isso deixarás de ser da minha parte o objeto dos mesmos atos.
Lembrei de um conto de Machado de Assis recém estudado na pós-graduação, intitulado “Noite de almirante”. Conta a história de Deolindo Venta-Grande, marujo que sonha reencontrar Genoveva, com quem namorou durante três meses, pouco antes de sair em viagem. Naquela ocasião, a caboclinha lhe jurara fidelidade e, agora, dez meses depois, Deolindo vai ao seu encontro. Qual não é sua surpresa quando chega à casa de Genoveva e a encontra amasiada com um mascate. Incrédulo, indaga sobre o juramento que ela fizera. A resposta:
- Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei era verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moço e eu comecei a gostar dele...
Genoveva é o símbolo da quebra do amor romântico, tão exaltado e descrito inúmeras vezes pelos autores que precederam Machado, por exemplo José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, como o único tipo de amor possível. O amor que é eterno, que tudo vence e tudo supera. Machado, ao contrário, narra a história de um amor que sucumbiu ao tempo, à ausência, aos atrativos do mascate que arrebatou o coração de Genoveva. O mesmo texto de Nietzsche, citado anteriormente, ratifica o pensamento realista da moça:
Quem promete ao outro amá-lo sempre ou odiá-lo sempre ou de ser-lhe fiel sempre promete algo que não está em seu poder.
E foi isso que aconteceu: Genoveva, “sem saber como, amanhecera gostando dele”, do outro. Em seu juízo, nada fizera de errado. A ler-se o fragmento abaixo, retirado do Tratado da natureza humana, de Hume, conclui-se que ela apenas aceitou seu destino natural:
Por que meios persuadir os homens de que as transgressões do dever conjugal são mais infames do que qualquer outro tipo de injustiça, quando é evidente que elas são mais desculpáveis devido à importância da tentação? E que possibilidade há de suscitar repugnância às proximidades de um prazer pelo qual a natureza nos inspirou um pendor tão forte, e um pendor ao qual é, no final das contas, de todo necessário ceder para a preservação da espécie?
Ceder ao pendor natural, ceder à tentação. Já dizia Oscar Wilde: “I can resist everything except temptation.” Ao que parece, essa é, realmente, a sorte do ser humano.
A mim, parece-me que é Vinícius de Moraes quem dá a última palavra sobre o assunto:
Soneto da fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Quem não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Postado por Bia às 14:36 5 tartareaders
Tartatags:
amor,
citações,
crônicas,
relacionamentos
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
O livro ou a vida
E se você tivesse de morrer por um livro? E se a diferença entre sua vida e morte fosse essencial para a gênese de uma obra-prima? Morrer por um livro tornaria a desgraça mais aceitável, atribuiria à sua existência um significado maior? Ter um infarto na fila do banco, sofrer meses em um hospital por causa de uma doença tropical, ser atropelado por um ônibus, nada disso teria a mesma importância; nenhum desses acontecimentos fortuitos poderia ser comparado a voluntariamente dar a vida por um texto de ficção.
Se minhas indagações parecem sem sentido, sugiro a leitura de A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafon, e recomendo também o filme Mais estranho que a ficção, com Emma Thompson e Will Farrell.
O livro tornou-se best seller da melhor forma possível: pela recomendação de quem já leu. Publicado no Brasil em 2004, foi ganhando leitores por meio de fãs apaixonados pela história de Daniel, um jovem que investiga o paradeiro dos livros escritos por Julián Carax e s envolve em uma complicada história de amor e mistério. A narrativa é sublime, elegante e arrebatadora.
O filme conta a história de Harold Crick, um contador que, de repente, passa a ouvir uma voz que narra e descreve todos os seus atos. Harold percebe que ele é o personagem de um livro que ainda está sendo escrito e passa a lutar pela sua própria existência, já que o destino do personagem é morrer. Os diálogos são muito bons, principalmente entre Harold e Prof. Hilbert (interpretado por Dustin Hoffman). Will Farrell comumente visto em comédias a la Saturday Night Live, repete a boa performance que teve em Melinda and Melinda. Emma Thompson está perfeita em seus trejeitos neuróticos e mostra muito melhor forma física do que vimos em Love actually.
É um livro sobre um livro e um filme sobre um livro, mas são, principalmente, contos sobre emoções humanas.
Postado por Bia às 13:07 0 tartareaders
Tartatags:
cinema,
literatura,
relacionamentos
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Comichão
Ontem de manhã, eu estava na sala de espera de um laboratório. Em volta, mulheres e mais mulheres esperavam ser chamadas, assistindo Ana Maria Braga na enorme televisão pendurada na parede.
Olhei em torno e a única revista disponível era, pasmem, a Homem Vogue. Refeita do susto de encontrar uma publicação destinada a um descolado público masculino em uma sala de espera lotada de mulheres, apanhei a revista e comecei a folheá-la. E foi então que eu o vi. Ou melhor, li.
Xico Sá, para quem morou em Vênus até a semana passada, é jornalista (escreve para a Folha e a Trip, por exemplo), tem um blog ótimo e é macho. Não, ele não é só simplesmente um indivíduo do sexo masculino. Ele é advogado de causa do macho, pregador exultante das maravilhosas diferenças entre o homem e a mulher, militante incansável da idolatria às mulheres. Ele é o autor de Modos de macho & modinhas de fêmea e Catecismos de devoções, intimidades & pornografias. Galanteios, lisonjas, elogios: as palavras de Xico são o que há de sexy nessa vida.
Devo confessar que o texto que eu li no magazine da sala de espera do laboratório despertou em mim uma comichãozinha. Ali, naquele lugar insólito e insípido, eu me perdi em fantasias provocadas pelas palavras do Xico. Não sei quantas vezes chamaram meu nome antes que eu acordasse dos meus devaneios com um sorriso no rosto.
Divido essa experiência com vocês:
DA ARTE DE PEDIR
Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.
Como elas pedem gostoso.
Como elas são boas nisso.
Resistir, quem há de?
Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico. É o jeito de pedir, o ritmo da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.
Pede que eu dou.
Pede todas as jóias da Tiffany’s, minha bonequinha de luxo!
Estou pedindo: pede!
Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.
Pede a bolsa de cerejas da Louis Vuiton, pede o shopping inteiro, pede a Daslu.
Pede que compro nem que seja no camelô.
Não me pede nada simples, faz favor.
Já que vai pedir, que peça alto. Você merece.
Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.
Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, um cheque sem fundos.
Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim ou de Nossa Senhora do Carmo no braço, são lindamente barulhentos.
Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.
Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.
Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”
Um castelo na Inglaterra?
Sim, eu dou na hora.
Sim, eu opero o milagre.
Como no pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!
Pede, benzinho, pede tudo.
Que eu largue a boemia, pare de beber e me regenere???
Pede, minha nega, que o amor tudo pode.
Mesmo as que têm mais poder de posse que todos nós não escapa de um belo pedido.
Com estas, as mais poderosas, tem ainda mais graça. Elas pedem só por esporte, o que não lhes compromete a pose e muito menos a independência.
Não é questão de poder ou dinheiro.
O charme e o que importa é o pedido em si, o romantismo que há guardado no ato.
Os melhores cremes da Lancôme? Vou a Paris agora. Estou pronto.
Eu lhe peço: me pede.
Não pede mimos baratos, pede atenção, por exemplo, essa mercadoria tão cara ao mundo das moças. Pede, sou o senhor de todas as tuas demandas.
Esse texto foi publicado originalmente aqui. Como eu não sabia se podia reproduzi-lo, pedi permissão ao Xico. Olha o que ele respondeu (29/11/07, 8h49):
ô querida, pode publicar sim o texto. nao somente este, mas qualquer um outro de minha autoria é de livre circulação. pode republicar sem pedir permissão.
beijo,pendurei o teu blog aqui nos meus favoritos.
xico sa
Fofo.
***
Atualização (19/12/2007): Fui ao lançamento do último livro do Xico, Caballeros solitários rumo ao sol poente, na Livraria da Vila, no último dia 12. Xico, galante como sempre, abriu um sorriso gostoso quando me apresentei e fez essa dedicatória:
Para Bia, que chegou linda e com vestido idem! Beijo, Xico Sá
Fofo, de novo.
Postado por Bia às 10:31 0 tartareaders
Tartatags:
amor,
crônicas,
mulheres,
relacionamentos
domingo, 7 de janeiro de 2007
If you can love me for what I am, we shall be the happier. If you cannot, I will still seek to deserve that you should.
(Ralph Waldo Emerson)
Postado por Bia às 17:13 4 tartareaders
Tartatags:
amor,
citações,
poesia,
relacionamentos
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
Abaixo a mesquinhez
Vou tentar falar sobre um assunto um pouco complicado de explicar e polêmico para entender.
Seu Aurélio define mesquinhez como insignificância, pequenez, miudeza, sovinice, avareza, desdita, infelicidade. Eu defino mesquinhez como pobreza de espírito e egoísmo, que pra mim são dos maiores defeitos que o ser humano pode ter.
Gente, ser egoísta não é comer um bolo de chocolate inteiro e não deixar nada pra ninguém, não é querer ficar em casa e assistir AXN até de madrugada, não é deixar o par constante em casa para ir a algum lugar sozinho. Isso é ter personalidade, é saber o que se quer e fazê-lo.
Egoísta é aquele que não dá passagem no trânsito, mesquinho é aquele que buzina em vez de contar até 5 (até 5, não precisa ser até 10!) e esperar o tráfico fluir numa boa. Egoísta é aquele que, quando você diz: "Tive um sonho tão legal...", ele diz: "Nossa, eu também!" e começa a contar o dele, se esquecendo de perguntar sobre o seu. Vocês sabem do que eu estou falando.
O que eu quero dizer é: todo mundo tem defeitos e problemas e eu acho, sinceramente, que cada um tem que pensar primeiro nos seus problemas para depois tentar ajudar os outros.
Postado por Bia às 22:55 0 tartareaders
Tartatags:
crônicas,
relacionamentos
sábado, 18 de novembro de 2006
Os brutos também amam - parte 2
Postado por Bia às 23:09 6 tartareaders
Tartatags:
amor,
crimes,
notícias,
relacionamentos,
violência
quarta-feira, 15 de novembro de 2006
Teus olhos

Um dia, uma amiga recebeu esse poema:
Teus olhos castanhos
Olhos azuis são ciúme
As palavras são de Alves Coelho.
Encontrei de novo esses versos em um livro antigo.
Não são lindas?
Postado por Bia às 16:44 2 tartareaders
Tartatags:
amor,
poesia,
relacionamentos


