Páginas

Mostrando postagens com marcador meus textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador meus textos. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de janeiro de 2009

A escrita de mim 09

Comecei aqui a publicação de alguns textos que escrevi quando estava no colegial. A Suzi, amiga desde antes daquela época, comentou aqui que foi um tempo em que escrevíamos muito e provavelmente foi quando produzimos alguns de nossos melhores textos.

Pois bem. Dando continuidade, aí vai mais um. Eu tinha 15 anos quando escrevi.

***

Podre

Não me lembro de como tudo começou. Quando acordei, estava junto com as outras, largadas, dopadas e jogadas num canto. A última coisa de que me lembro era a minha casa. Estava lá com minhas irmãs quando fui arrancada por uma mulher de porte esbelto e elegante, que me levou para um lugar distante, frio e sombrio. Depois, minha mente permaneceu como que desligada do mundo, e acordei só agora.


Estou junto com outras que, agora reparo melhor, estão saudáveis, coradas. Concluo que eu sou a única doente. Por que será que estou no meio delas? Minha mente está confusa e não consigo pensar. Adormeço.

[...]

Agora estou sendo levada para um outro lugar, mais alegre e bem arrumado. Uma outra mulher me pega e, sem motivo, me dá uma mordida.

Ela ainda me segura, mas no instante seguinte cai, me jogando longe.

Algumas horas depois, os Anões chegam e encontram Branca de Neve desmaiada. Na correria de socorrê-la, sou pisoteada e o veneno dentro de mim escorre pelas frestas do assoalho. A última imagem na minha mente foi a lembrança daquela bruxa velha que me envenenou.

(1990)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Histórias de Bia (3)

Depois que eu desliguei o telefone, meu mundo caiu.

Meu filho de um ano e meio dormia no carrinho e, à minha volta, as mulheres que carregavam sacolas de marca contendo roupas descartáveis não tinham ideia do que acabara de ocorrer, embora todas elas, aposto, dedicassem vários minutos de seus dias vazios e suburbanos a sonhar com uma ligação como a que eu recebera.

A voz dele, muda nos últimos 10 anos, ainda parece saída de um personagem de desenho animado e a impressão de que do outro lado da linha poderia estar alguém como o Patolino ou o Mickey não diminuiu a onda de tesão que, como um tapa, acordou meu corpo.

Não consegui contar a verdade, porém. De todos os dias de todos os anos em que estivemos separados, ele escolheu hoje, justo hoje, para, tal Lázaro, ressurgir das cinzas de um relacionamento que eu julgava enterrado em um passado do qual eu não tenho orgulho nenhum. Hoje, justo hoje, o dia do meu aniversário de casamento, minhas bodas, como o fotógrafo da revista fez questão de nomear quando me ligou pedindo permissão para cobrir a festa.

Ele disse que queria me ver, pediu que eu o encontrasse mais tarde naquele café do centro da cidade. Eu disse que iria, que ele me esperasse. Falei que seria ótimo revê-lo, a única coisa que não era mentira.

A verdade ele vai ficar sabendo pelas bancas de jornais amanhã.

Rio de Janeiro, 2007

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Contos inacabados (1)

Recebi o pacote com as cartas dois dias depois do funeral. Reconheci a letra instantaneamente, assim que coloquei os olhos no envelope. A escrita uniforme, com microespaços a cada três ou quatro letras, porque ela costumava respirar entre as sílabas. Ou mudar de idéia enquanto escrevia.

Era um pacote pardo, de papel reaproveitado, correto como ela foi, ou tentara ser, por toda a vida. Parecia um envelope de escritório, embora não tivesse timbre e eu soubesse que ela não tinha emprego fixo. Lógico que não, escritor não tem carteira assinada, não bate ponto, não tem holerite.

Imaginei que fosse algum manuscrito, um livro inacabado. Nada me preparou para o que encontrei quando abri o pacote, o que só aconteceu semanas depois de eu o ter recebido. A turnê do meu último livro tinha recém começado e eu viajaria pelo país visitando universidades e bibliotecas por algum tempo antes de voltar para casa. Eu poderia ter carregado o pacote comigo, leria no avião, teria tido tempo para isso, mas não o fiz. A bem da verdade, eu receava o conteúdo, temia desvendar aquele mistério.

De volta, ainda demorei alguns dias para criar coragem para finalmente descobrir o que uma moribunda teria para me dizer, a mim, que há tantos anos não a via e que soubera da morte pelos jornais.

Aquela correspondência me perturbava. Os ecos da nossa última conversa ainda me atormentavam.

Cuidadosamente, rasguei o pacote com o abridor de cartas. Não queria arriscar estragar o envelope. Era a letra dela que estava ali, era uma das últimas coisas que ela tinha escrito. Ainda que fosse apenas um endereço, era o lugar onde ela tinha morado durante breves instantes. Era o meu nome que estava ali, as últimas letras de uma das maiores escritoras que já conheci.

Um punhado de cartas. Ou eu supunha eram cartas. Fechadas em envelopes de diversas cores e tamanhos, endereçadas a pessoas de quem eu nunca tinha ouvido falar. Havia também uma carta para mim.

Ela dizia que tinha tido muito tempo para pensar e que sentira minha falta, embora não pudesse chamar meu nome. Ela esperara o filho se ausentar do quarto para entregar o pacote à enfermeira junto com um dinheiro e a recomendação de postá-lo só depois que morresse. Ela pediu que eu procurasse aquelas pessoas. Disse que eu precisava conhecê-la, compreender o que tinha se tornado. Disse que era o único jeito: se eu ainda quisesse saber quem ela era, deveria seguir as cartas.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A escrita de mim 08

Outro dia, revirando minhas gavetas, encontrei alguns textos que escrevi quando eu era adolescente. Relendo, lembro-me da época em que os criei e de como eu achava bacana usar certos elementos.

Eu tinha 15, 16 anos e achava o máximo da ousadia usar palavrões e falar de sexo, o máximo da rebeldia que meus personagens fumassem em cena ou tivessem conflitos psicológicos profundos. Tsc, tsc, tsc, tolinha.

Minha autocensura é enorme, muito maior que minhas pretensões literárias, razão pela qual reflito tanto sobre o ato de escrever e sobre o processo criativo. Mesmo assim, resolvi finalmente publicá-los periodicamente aqui no Casco.

Comecemos com um exercício que fiz no 1º colegial. A finalidade era criar uma história a partir da descrição de um dado objeto no texto. Entre os elementos listados pelo professor, escolhi o relógio. A idéia era de que o objeto fosse central no enredo; como vocês perceberão, proposta da qual eu fugi bastante.

***

Demônio da noite

Ele olhou o relógio. Faltava dez minutos para meia-noite. O relógio de fundo branco, ponteiros dourados e pulseira de couro foi a única coisa que lhe restara. Era bonito e por vezes parecia que falava, relembrava os velhos tempos. Levantou a cabeça e entrou no cemitério. Empurrou o pesado portão de ferro, trabalhado e desenhado. A enorme fechadura há muito estava enferrujada. Claro, afinal era um cemitério abandonado. Foi andando por entre os túmulos, observando as lápides. Algumas eram de pedra-sabão, outras de mármore, mas todas ricas e bem entalhadas. Concluiu que o cemitério abrigava os fantasmas dos nobres ricos de antigamente. Respirou fundo e continuou andando. Levantou a gola do casaco, um gesto típico seu desde aquela outra noite. Havia cinco anos... e desde então, a vergonha não o deixou em paz. A cicatriz contornava-lhe a orelha e ia até a têmpora, cicatriz de faca, um rasgo fundo que ainda fazia doer seu ego machucado.
Na sua cabeça, as imagens dos túmulos confundiam-se com as imagens dele, aquele que o marcara por todos esses anos. Naquele dia contava-se exatamente cinco anos, durante os quais ódio cresceu paralelamente à vergonha. Sentia um demônio dentro de si como se pudesse matá-lo, o seu amigo... seu amigo agora era o demônio dentro dele. Que lhe dava força, força para seguir em frente, para achar o bastardo que fizera aquilo. Depois de cinco anos, o ódio transbordara e se transformara em vingança. Caminhava agora mais rapidamente, avistava a casa do coveiro, o esconderijo do filho da puta. Tirou o revólver do bolso do casaco, carregou-o e chegou até a porta da casa. O ódio se misturou à vingança e à lembrança da cicatriz que carregara por tanto tempo. O demônio chutou a porta e atirou, destruindo tudo, os móveis, as lâmpadas, o bastardo. Não dera chance nem para um adeus. Contemplou o que fizera, o demônio radiante dentro do seu corpo. Virou-se, deixando o corpo estirado, a casa arruinada e o ódio curado.
(1990)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Reflexões na sala de espera do médico

9h50.
"Será que é possível uma pessoa feliz escrever bem, assim, boa literatura? Essa gente que não tem problema, que está feliz com o que tem, satisfeita no casamento, que tem filhos comportados, goza de boa saúde. Sobre o que uma pessoa dessas falaria? Só posso imaginar que escrevesse um daqueles romances água-com-açúcar ou belo thriller imprevisível. O primeiro, porque refletiria a vida que leva, em que as coisas estão nos eixos e há pouco espaço para surpresas. O segundo, justamente pelas razões opostas, porque seria a única forma de trazer caos para a ordem cotidiana, de acordar a pasmaceira do dia-a-dia e fazer sentir, provocar emoções, que, de outra forma, o autor não sentiria. É preciso ter algum desvio psicológico, alguma tara, obsessão, idéia fixa, algum interesse secreto, para escrever literatura? Na verdade, todos possuímos tudo isso; necessário mesmo é ter coragem de desnudar nossas fraquezas e envolvê-las em papel e letras e palavras. Acho que gente feliz não escreve porque não precisa pensar na própria vida, não se depara com dilemas, não tem de tomar decisões difíceis, tão difíceis que a cabeça fica imaginando inúmeras soluções alternativas para não encarar a realidade.
Quando eu era adolescente, escrevia muito mais, embora nem sempre com qualidade. A maioria das vezes, verdade seja dita, com nenhuma qualidade. mas eu escrevia, tinha muito mais imaginação (ou disposição) para fazer de conta, criar vidas que não eram minhas, fazer nascer relações que não me pertenciam. Hoje, é muito difícil me dissociar da minha própria vida, da minha personalidade, do meu personagem. Sinto que todo personagem que eu criar será uma versão alternativa de mim mesma, e a chance de as pessoas perceberem isso me apavira, a idéia de expor a mim e minhas psicoses, paranóias, essa realidade que só existe para mim, é aterrorizante."

10h20.
"A história da minha vida. Entro e saio de ortopedistas desde que me lembro, Meu pé esquerdo, meu joelho direito, um cotovelo que não lembro qual é, a lombar. Já tirei tanta radiografia que conseguiria juntar todas e montar uma chapa de corpo inteiro, uma versão gótica de um book de modelo e manequim. Tenho a impressão de que meus ossos não fazem parte do mesmo conjunto, como várias caixas de Lego que se misturaram: a do circo com a do cowboy com a do astronauta com a do bombeiro. Quanto tentamos encaixar o chapéu de um na cabeça de outro, até serve, mas fica capenga."

10h35.
"Alguém já reparou como as pessoas adoram parecer super-heróis? Adoram dizer que dormem tarde e acordem cedo, que não precisam de oito horas de sono, que mal tem tempo de almoçar, que vão de São Paulo a Campinas em meia hora, que já foram multados três vezes na Imigrantes, que estão prestes a perder a carta, e achando bonito tudo isso. Que o celular não pára de tocar, que trabalha 15, 16 horas por dia, que não tem tempo de ir ao cinema, que não podem se dar ao luxo de ficar doente. Tudo isso, elas dizem com uma pontinha de orgulho, já repararam?"

10h41.
"Deus me guarde e me conserve para que eu morra do coração, para que eu mantenha minhas faculdades mentais e minhas habilidades físicas até o fim."

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Literatura japonesa

Em comemoração ao centenário da imigração japonesa, escrevi um pequenino artigo sobre Jun'ichiro Tanizaki no Homem Nerd.

Tanizaki é o maior escritor japonês do século 20, algo como um Nelson Rodrigues nipônico (que me perdoem os críticos a ousadia).
Polêmico, fetichista, podólatra, delicioso de se ler.

Recomendo.

domingo, 23 de março de 2008

Bia no Beco

O Beco do Crime, de Andre Esteves, autor de O mistério da 13a. letra, publicou meu texto sobre as mulheres e a literatura policial.

Originalmente, esse texto destinou-se a compor o especial do mês de março do Homem Nerd, que reuniu artigos de todos os colaboradores sobre a atuação feminina em diversas áreas do entretenimento.

Se quiser ler o que escrevi, vá ao Homem Nerd ou ao Beco.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Literatura no Oscar 2008

Escrevi um artigo sobre os livros que inspiraram os filmes que estão concorrendo ao Oscar este ano.

Vai e veja se gosta!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A escrita de mim 07

Encontro

Venho de uma terra em que os homens andam a pé, e as mulheres, a cavalo.

Venho de um tempo em que nos enamorávamos de tudo o que era poético; de uma casa em que as paredes eram tão grossas que os segredos não as podiam transpassar.

Venho de uma escola em que as aulas eram abertas, os cursos eram completos e os pensamentos eram livres.

Venho de uma cozinha em que os sabores não tinham nomes, eram apenas sensações que explodiam em nosso juízo, nos faziam humanos.

Venho de um amor sofrido mas triunfante, breve mas constante, único mas efêmero.

Venho de uma gota de chuva que um dia molhou os teus cabelos quando voltavas para casa e ele não te seguiu.

Venho do único raio de sol que conseguiste enxergar quando, enclausurada, achavas que a vida não valia mais a pena.

Venho do alto dos prédios que cercam a tua casa, venho rente ao chão do jardim da praça onde passeias. Venho de um mundo em que nada mais existe.

Venho pedir-te que saias comigo, venho implorar-te que sejas minha.

Venho buscar-te para um passeio, venho salvar-te dos olhares que se fecham quando passas.

Venho roubar-te para devolver-te a alma, venho cantando para calar-te.

Venho sorrindo para que te lembres de que partirei um dia.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A minha escrita

Quanto mais leio, mais sinto que sou incapaz de produzir um texto de ficção de qualidade. Acho que o fato de saber o quanto alguns são bons, faz-me temer o quanto posso ser ruim.

Minhas falhas são inúmeras, e não as relatarei todas, mas, por exemplo, eu não sei escrever em terceira pessoa; meu foco narrativo está sempre em primeira pessoa. Essa característica acaba por imprimir um tom confessional e memorialista à minha escrita e que não é inteiramente real. Tudo o que escrevo são, sim, as minhas memórias, mas nem sempre elas aconteceram. Muitas vezes são hipóteses, fragmentos do que poderia ter sido.

O que nos leva a uma outra questão, menos técnica porém mais delicada: o sentimento que mistura vergonha, timidez, senso de autopreservação e egoísmo e que me toma cada vez que penso em publicar, mesmo que seja no blog, os meus textos. Se tudo o que escrevo advém das minhas memórias – ainda que inventadas –, tudo o que sou transparece. Mas será que quero (ou posso, ou devo) deixar que saibam quem eu sou?

Meu grilhão é a opinião de quem está ao meu redor. Será que perceberão que é tudo verdade? Ou, pior, será que entenderão que é verdade só para mim?

Minha escrita não tem data, não tem nome, não tem local. Como posso dar outro nome àquele que é personagem de mim e, no entanto, não é aquilo que sou? Como posso fazer local aquilo que é estrangeiro? Como posso atribuir espaço delimitado aquilo que está fora de lugar? Essa escrita também não tem começo, não tem fim, é fragmentada, porque a minha memória é assim.

Ao mesmo tempo, é o ato de escrever que permite que eu seja duas, três, várias, mil, nenhuma. É o que me faz branca, negra, amarela, prostituta. Filha, mãe, amada, desprezada.

Acabo por concluir que é na segurança da minha caneta que vivo, é no conforto das minhas letras que respiro.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Bibliografia sobre romance policial

Acabo de colocar o ponto final em um ensaio, que me foi solicitado, sobre literatura policial. Responsável pela minha ausência deste casco pelos últimos dias, o assunto me é muito caro para que eu ficasse brava por não poder pensar em outra coisa.

Minhas últimas leituras, então, foram dedicadas a ler (ou reler) algumas obras críticas sobre a narrativa policial. Elas não são abundantes em português, mas, felizmente, possuo alguns bons títulos em inglês, embora ainda me faltem os basilares em francês.

Reli O que é romance policial (esgotado) e Literatura policial brasileira, ambos de Sandra Reimão, professora doutora com quem tive a oportunidade de conversar uma vez.

Reapreciei partes de O mundo emocionante do romance policial, de Paulo de Medeiros e Albuquerque, também esgotado. Embora o livro date de 1979, e por isso não inclui a imensa produção mundial dos anos 80 e 90, muitas considerações ainda são atuais.

Deliciei-me com Delícias do crime, de Ernst Mandel, uma visão marxista da literatura policial, e com Bloody Murder, de Julian Symons, outro livro antigo (de 1972), mas paradoxalmente atualíssimo.

Ainda passei os olhos por The Cambridge Companion to Crime Fiction, organizado por Martin Priestman - prova de que o meio acadêmico aos poucos se rende ao crime -, e por Whodunit?, seleção de ensaios organizada por H.R.F. Keating.

O resultado? Na minha opinião, ficou um bom ensaio. Resta saber se quem mo encomendou gostará.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A escrita de mim 06

JAMES

Dançávamos ao redor do salão. Elegância, pompa e circunstância. Minha cintura, seus braços, eu ria, você também. Lembro de todos os detalhes brancos, os detalhes rendados, lavandas, lilases. É tudo tão real, mas já passou. Foi diáfano, etéreo, eterno, tranqüilo, intenso, inebriante. Tão envolvente que mal consigo escrever, apenas lembrar.

Obrigo-me a pegar da pena. É preciso contar, James, não posso mais com o fardo sozinha. Deposito-o no papel, confidente perfeito. É mudo, não me criticará, não fará juízo de nós. Quando alguém encontrar esta nota amanhã, saberá que não vivi em vão.

O ramo de lavanda em cima do travesseiro, você ainda não chegara. Andando pelo quarto, eu procurava me acalmar. Por entre as frestas da porta pesada, esgueiravam-se notas austríacas que murmuravam a melodia há muito ensaiada. A música de súbito abriu a porta e alucinada me arrebatou e me fez cativa liberta. Lembra, James?

O ramo de lavanda está jogado em um canto do quarto, no chão de madeira. O tecido amarrotado, rendado, desarrumado, você já se foi. Encolho-me, entregue, e já não sou mais o que era. O mercadejar, a que estava acostumada e em que me encontrava senhora, não mais me pertence. É dessa lascívia, que de mim se apossa, que agora sou serva.

James, eis o ramo de lavanda, estame lasso e frouxo como minha luta, belo e perfumado como meu corpo livre da mercancia. Carregue-o com você, se quiser, ou então deixe-o em cima do mármore da minha última residência.

(novembro de 2007)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A escrita de mim 05

Reencontro

Casal sentado em um café.

- Faz tempo...
- Faz, faz tempo. Mas não quero falar do passado, se você não se importa. Nem da sua esposa. Podemos falar de bobagens, só?

A escrita de mim 04

Retrospecto

Quando, certa manhã, acordei de sonhos intranqüilos, encontrei-me em uma cama metamorfoseada em alento. O corpo nu, meu corpo nu, não respondia aos meus comandos para que saísse dali. Há dias aquele corpo não me obedecia e eu preferia assim. Tornava mais fácil me deitar com os outros corpos nus.
A vergonha me pregava à cama, mas a urgência me obrigou a abrir os olhos. Reconheci o quarto: não estivera ali desde os 17 anos, mas guardava todos os detalhes comigo. A cama estreita, encostada à parede, a estante com coleções enciclopédicas desatualizadas, ultrapassadas como as tentativas de resgate que eu acabara de fazer. Seus pêlos sobre a minha pele desenhada, minhas marcas sobre a minha vontade afoita. Sua força, o peso de 14 anos sobre meu corpo e eu. Eu que a tudo assistia, tudo sentia e de tudo esqueceria no minuto em você desabasse em êxtase, ao meu lado.

(junho de 2007)

sábado, 23 de junho de 2007

A escrita de mim 03

Diálogos imperfeitos

- Olha, andei pensando... Acho que eu prefiro que você não fale mais comigo. Ou melhor, que continue falando comigo do mesmo jeito que nas últimas semanas: o estritamente necessário. Desde aquela última vez, você só fala comigo sobre o tempo. Parece que você fica sem jeito, procurando assunto, mas não acha. Então o melhor é a gente nem tentar mais, deixa como está. Se você acha que é uma situação chata, que não está com cabeça paralidar com isso, se você acha que precisa botar um ponto final e não sabe como, tudo bem. Nunca foi minha intenção te deixar constrangido, mas é bom lembrar que eu não fiz nada sozinha. Ponto final. Aí está, seu ponto final.

A escrita de mim 02

TODOS OS NOMES, O NOME

Falar sobre meu nome é falar sobre mim. Mas será que sei quem eu sou?

“No princípio, era o verbo”, assim diz a Bíblia. Se o verbo é o nome, então esse é o meu começo.

Nasci a bendita, a beata, a que traz felicidade. Cresci e passei a carregar o nome dos meus avôs e levar os feitos dos meus pais. Não foi senão na adolescência que me dei conta do que existia no meu nome: minha herança, a responsabilidade de honrar e fazer jus àqueles que vieram antes de mim.

No meu nome está a doçura de uma avó e a perseverança de outra; a rigidez de um avô e a sabedoria de outro; a justiça de meu pai e a generosidade de minha mãe.

Por outro lado, tenho o conformismo de uma e o autoritarismo de outra; a teimosia de um e a saúde fraca de outro; a introspecção de minha mãe e a intemperança de meu pai.

Meu nome é mais do que letras, é mais do que podem imaginar as tintas da minha idade; é meu orgulho, minha conquista – sou eu.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Uma Ode à Segunda-feira

Gosto das manhãs de Segunda-feira. Sei que faço parte de um diminuto grupo de pessoas que acordam no primeiro dia útil da semana com um sorriso no rosto. Talvez tão diminuto que inclua apenas esta incauta deslumbrada que vos fala.

Segunda-feira de manhã é o momento utópico da semana que se inicia. Nesse momento, as alegrias, diversões e descansos gozados durante o Sábado e o Domingo ainda povoam a mente e a noite bem dormida, fruto da ausência de preocupações, fortalece o corpo para a série de atividades a serem desempenhadas durante a semana.

É então, neste exato momento, que se pensa: tudo é possível porque eu posso tudo. É na Segunda-feira de manhã que cada um se torna membro da Liga da Justiça, super-herói cotidiano capaz de cumprir com todas as suas tarefas e ainda salvar o mundo no fim do dia.

Deitado na sua cama, o sujeito planeja a semana. Decide levar o relógio, o liquidificador, o vídeo cassete para o conserto. Ninguém mais usa vídeo cassete, mas ele vai levar o aparelho até a assistência técnica mesmo assim, porque decidiu não deixar mais nada quebrado dentro de casa.

Resolve que vai realmente se alimentar melhor essa semana. Olha, se comer apenas um bife com salada de tomates na hora do almoço, está ótimo. E suco, sim, suco, nada de refrigerante. Cerveja, nem pensar.

Vai se informar sobre aquelas aulas de inglês, tae kwon do, oratória, desenho livre, precisa ter outra atividade além do trabalho, senão acaba estressado, irritado com todo mundo. Decide exercitar o lado direito (ou será o esquerdo?) do cérebro, tem que pensar na velhice. Envelhecer é uma arte, todo mundo sabe disso.

Então, o sujeito se levanta, toma banho, toma café da manhã (já então começa a cuidar melhor do que come), se veste e vai para o trabalho. Sente-se bem, revigorado, de novo de posse das rédeas da sua existência.

Na Sexta-feira à tarde, o vídeo cassete continua quebrado; ninguém usa mesmo, para que gastar dinheiro com isso. Comeu o bife, a salada de tomates e mais hamburger, pizza, torta de frango e macarrão, fora os três pães de queijo na hora do almoço de quinta-feira porque não teve tempo nem de sair da mesa para almoçar. O chope (chopes, mais de um, certamente) no happy hour de quarta-feira, isso não conta, era a despedida da secretária júnior de um dos sócios adjuntos do departamento comercial de uma empresa coligada, ocasião especial. Tampouco fez tae kwon do ou desenho livre, quem é que tem tempo para isso?

Cinco dias depois, aquele momento utópico de total controle dos seus atos e horários parece longínquo e confunde-se em uma bruma de sensações em que predomina a vontade de que a semana acabe e nasça o Sábado.

Envelhecer é horrível, todo mundo sabe disso. Mas não fica pior ainda quando o tempo tanto escorre lentamente qual areia em ampulheta ou nos atropela fosse vento de verão?

Na próxima Segunda-feira, começa nova semana. É chegado o tempo de a utopia dar lugar à ação.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

A escrita de mim 01

Só para ilustrar o texto abaixo, colo aqui um qualquer-coisa que me ocorreu no momento em que terminei de assistir Closer, do Mike Nichols (Quem assistiu? É fantástico!):

ALICE
I can't take my eyes of you
I can't take my mind of you
I can't take my hands of you
Lembro de quando te vi. Você me disse que não gostava de palhaços, me disse que tinha medo daqueles coelhos de Páscoa enormes, no supermercado. Eu te contei que não conseguia nadar sem bóia até os doze anos e que nunca gostei de matemática. Você respondeu que nadar sem bóia é muito mais importante que matemática. E nesse tempo todo, eu não conseguia tirar meus olhos de você, não conseguia parar de reparar em todos os seus detalhes. Suas unhas bem curtas, sua marca de catapora, seus cabelos longos, seus brincos, a queimadura no braço, não conseguia tirar meus olhos de você.
Lembro de quando acordei ao seu lado, em um domingo. Era mais um dia, mais uma repetição da nossa vida, mais ainda assim eu reparei. Reparei no sofá novo, reparei no seu livro pela metade, com o marcador de páginas que te desafiava noite após noite, reparei que o rádio-relógio estava fora da tomada, reparei que tínhamos toalhas novas no banheiro. Não conseguia parar de reparar, em tudo, em você, em nossa casa, em nós. Não conseguia tirar você do pensamento.
Quis estar com você todo o tempo, quis te proteger, falhei. O sofá rasgou, o livro se foi, o rádio quebrou. Sigo você por todos os lugares, atrás de você no ônibus, peço a mesma salada no almoço, leio o mesmo jornal, dia após dia. Meus olhos procuram seu rosto, minha mente procura suas palavras e tudo está lá.
Minhas mãos, elas percorrem seu corpo, tocam sua marca de catapora, passeiam pelas suas cicatrizes. Acariciam seu pescoço, a linha onde está o colar que ele te deu. Unidos, eu e você, minhas mãos, minha vontade, minha força, seu último sopro. Não consegui me manter longe de você.
É isso.

A escrita de mim

Quando eu era adolescente, eu escrevia pra chuchu. Qualquer coisa que me acontecia, fosse boa ou ruim (e o que é que de ruim acontece a uma adolescente: o garoto não olhou pra você na hora do recreio?), lá eu ia, caneta em punho, desabar minhas palavras na primeira folha de papel que aparecesse pela frente.
Meus melhores escritos são dessa época. Talvez você pense que eu sou meramente uma nostalgica e é por isso que reler o que eu escrevi aos 13 ou 15 anos, me parece tão bom. Você não poderia estar mais enganado. Não sinto saudades dessa época; tenho boas recordações, sim, mas a melhor delas é ter ganhado a amizade sem limites da mãe do Arthur e do Allan.
Agora, eu preciso escrever de novo, Dessa vez não são minhas agruras e meus devaneios, mas artigos críticos sobre literatura policial. O frio na barriga é o mesmo, mas a responsabilidade é bem maior. Dessa vez, alguém mais vai ler.