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sábado, 9 de fevereiro de 2008

Bisbilhotando a biblioteca alheia

Qual a primeira coisa que você faz, quando entra na casa de alguém pela primeira vez?

A boa educação manda sermos comportados. Devemos sentar na ponta do sofá, aceitar um cafezinho, levar um vaso de flores ou uma caixa de bombons. Não devemos mexer nos enfeites ou abrir a geladeira. Brincar com o cachorro, pode; perguntar o preço do tapete persa da sala, não pode. Elogiar um quadro, pode; perguntar se foi a filha do dono da casa que pintou, não pode.

E investigar a biblioteca alheia, pode? Não sei, mas é a primeira coisa que faço. Ou melhor, que quero fazer, quando entro na casa de alguém. Às vezes, ajo discretamente ("Bonita a sua casa... Posso conhecer os outros cômodos?") e vou percorrendo os corredores em busca dos livros. Às vezes, não resisto e já vou logo perguntando onde é que está a literatura, me dá, deixa eu ver.

Na minha casa, quando eu era pequena, os livros costumavam ficar todos reunidos em uma estante, no quarto de TV. Eu cresci, a TV ganhou a sala e eu, um quarto (e a tal estante) só para mim.

Recentemente, percebi que eu tentava rechar a pobre estante (a mesma de 20 anos atrás) com mais estofo do que ela podia suportar. O espaço nas prateleiras finara. A solução foi rearranjar os livros, dividindo-os por seções e alocar referidas seções em outros locais da casa.

Assim, a sala de visitas recebeu os livros de arte e os DVDs; a cozinha, os livros de gastronomia; meu banheiro, a coleção das revistas EntreLivros e Língua Portuguesa; o quarto da minha mãe, os guias de turismo, mapas, livros sobre religião e esoterismo; meu quarto, a poesia e o teatro. As graphic novels (nome chic e adulto para histórias em quadrinhos) foram colocadas em duas caixas de plástico, no alto da estante, a salvo da poeira.

Precisei de algumas prateleiras sobressalentes. Uma para abrigar os livros de referência - dicionários, gramáticas e manuais de redação - perto da mesa onde escrevo, ao alcance da mão e das minhas dúvidas. Outra, para colocar os volumes de crítica literária e os meus xodós, os livros sobre livros. Mais outra, para separar a bibliografia de que vou precisar para minha monografia e, no futuro, para o mestrado.

A divisão e organização de todos esses livros é muito clara para mim, embora incompreensível para os outros, mas eu não ligo. Então, quando me deparo com a biblioteca de alguém, procuro adivinhar a ordem em que os livros estão arrumados, que assuntos predominam, quais os interesses do meu anfitrião. Entorto a cabeça para ler os títulos nas lombadas. Retiro um ou outro livro e abro-o em busca de autógrafos, dedicatórias, marcadores esquecidos, recortes de jornais, anotações à margem. Muito pode ser aprendido sobre uma pessoa bisbilhotando sua biblioteca.

A tecnologia (ah, a tecnologia!) agora permite que a bisbilhotice se dê virtualmente também. Goodreads é um site, a la Orkut, em que, em vez de cadastrar seus amigos, você pode cadastrar seus livros. Os que você já leu, o que você está lendo, todos os que ainda quer ler. Assim, seus amigos podem examinar a sua biblioteca sem constrangimento algum.

Parece uma boa idéia. Já comecei a montar minha estante virtual. Ainda está bem vazia, mas, com o tempo, incluirei novos títulos.

E.T. "Bisbilhotar biblioteca" parece um trava-língua, não? Algo como "três tigres tristes".

7 comentários:

Blog do Beagle disse...

aI, QUE DELICIA DE TEXTO! eU JÁ FUI ASSIM. aDORava ler e adorava cheretar nos livros alheios. Hoje eu leio pocos. Fico no tecnico e me canso por causa da visão. Começo um romance e largo loguinho... Poesia? Nunca entendi! Amei. Olha, tem um clube do livro na net, vc conhece? Passe no meu blog e clique na LYS. Daí para frente é com vc. Bjkª. Elza

Anônimo disse...

Smith!, quanta indiscrição! E se o pobre do sujeito tiver toda uma secção de livros de péssimo gosto, ou então de sadomasoquismo, ou então não tem o hábito de fazer faxina em sua biblioteca, ou deixou lá um prato com restos de comida, uma garrafa de refrigerante vazia, um pedaço de sua própria alma, em frangalhos, e mesmo o próprio coração, estilhaçado?
Bibliotecas... pedaços da vida, não?
Simão

Bia disse...

Elza,
ainda existe essa vontade de ler em você, eu te conheço, eu sei.
Obrigada pelos elogios, mas - preciso dizer - se hoje escrevo como escrevo, a família Lara contribuiu muito.
Beijos!

Bia disse...

Simão,
confesso: sou, sim, extremamente indiscreta, às vezes. Mas, sabe, são esses pormenores que me atraem. O copo meio vazio, os livros escondidos, as palavras mal escolhidas...
Beijos.

iphigênia disse...

Ai, eu também sou super indiscreta. Minha estratégia é fazer a pessoa me convidar para ver a sua biblioteca. Começo a sugerir que amo livros, que gosto de ler, que isso, que aquilo, e quando a gente menos espera está convidada. Não é boa idéia?

Bia disse...

Ótima idéia, Iphy! Vou colocá-la em prática!

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado