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segunda-feira, 5 de maio de 2008

Filho da mãe

A historiadora Mary del Priore, em coluna publicada no Suplemento Feminino do Estadão de ontem, comenta o caso Nardoni. Do texto, intitulado Carta às mães de dois monstros, que começa falando do indiciamento do pai e da madrasta da menina, destaco os seguintes trechos:


Penso, contudo, em suas mães. Pergunto-me se ambas têm consciência dos monstros que trouxeram ao mundo. Como será acordar, todas as manhãs, ouvindo no íntimo a voz de milhares de cidadãos pedindo justiça por um crime que revirou as entranhas de tanta gente? Como será colocar as cabeças sobre o travesseiro, sabendo que pariram duas anomalias? Como foi possível ensiná-los a mentir com tamanha desfaçatez?[...] Quem são essas mães?

Quero saber seus nomes. Quero ver seus rostos, de olhos secos e almas ressequidas. Quero entender como é possível consentir e calar sobre o assassinato de uma neta. Quero entender seu silêncio pesado, opressivo e inquietante.

Que seu luto seja o arrependimento eterno. Que incorporem a culpa de seus filhos para que seus atos infames não se repitam mais. Que exibam seu passado familiar, para que cidadãos de bem possam se vacinar contra ele.

Que mães são essas? Por que não assumem suas responsabilidades? A dívida de seus filhos com a sociedade lhes será cobrada de uma maneira ou de outra. Se o papel das mães é o de dar leite e mel – como queria o filósofo – estas alimentaram seus filhos com fel. Choca saber que é possível criá-los totalmente impermeáveis a valores morais. Que é plausível aceitá-los como mentirosos patológicos, impermeáveis à preocupação com a verdade. Que é possível conviver com viciados em falsidades, sem corrigi-los e velando sobre seus erros. [...] Essas mulheres não têm palavra. São mães mudas, escondidas pelo silêncio culpado e, pior, cegas. A perda de respeito pela verdade corrói tudo o que as liga ao restante da sociedade.

Mas cabe às mães impedir catástrofes assim. Quando elas deixam passar muitas oportunidades de serem honestas e preocupadas com a verdade de suas próprias relações, não conseguem mais trazer os membros de sua família a uma situação de confiança mútua. [...] Diante da neutralidade destas mães reside o obsceno, a banalização do mal.

Relutei muito em comentar o assunto aqui no blog porque a polêmica criada pelo fato em si e fomentada pela imprensa já tem tomado bastante espaço e tempo de nosso cotidiano. No entanto, depois de ler esse texto de veia acusatória, não pude mais me calar.

Concordo em parte com a historiadora. Também acho que as mães são as maiores responsáveis pelo comportamento dos filhos, por ensinar que devem respeitar o próximo, pelos valores éticos e morais que devem passar. Em diversas culturas, como a coreana, por exemplo, o mau comportamento de um filho é visto como falha dos pais, é deles que se fala mal, são eles que recebem os comentários negativos.

No entanto, não acho que se possa atribuir toda a maldade de um filho à sua mãe. Há um limite na influência que uma mãe tem sobre o filho. Cria-se os filhos para o mundo, costuma se dizer, e é o mundo quem exerce grande influência negativa sobre uma pessoa. Concordo que o caráter, os princípios e os valores são moldados e estabelecidos em casa, a partir de ensinamentos dos pais, mas passada certa fase há muito pouco que uma mãe pode fazer.

Eu costumo dizer que uma mãe pode erguer um filho, mas também pode estragá-lo de vez. Muitos são os traumas por que a figura materna é responsável, inúmeros são os desvios de comportamento que podem ser atribuídos à uma mãe amalucada. Ainda assim, não acho que uma mãe, em sã consciência, crie os filhos para serem mentirosos, salafrários, magarefes, biltres, canalhas, desonestos, pulhas, trapaceiros, pilantras, ladrões, estelionatários, assassinos. Acho que isso acontece quando o filho adquire certa liberdade de decisão e certa independência de atitudes, mas não sabe o que fazer com as novas ferramentas. Não sei se foi Marx ou Sartre quem disse que o homem é fruto do meio, mas acho que é sim.

Também acho que falta um pronunciamento das mães de Alexandre e Anna Carolina, mas penso que é muito exagerado clamar aos quatro ventos que tudo o que aconteceu é culpa delas.

2 comentários:

Elaine Dellaflora disse...

Olá Bia, concordo 100% com você. As mães não são as principais culpadas de nossas atitudes. Elas têm sim responsábilidade muito grande na nossa formação, mas o que fazemos depois de adultos é de nossa inteira responsabilidade. Tenho dó dessas duas mães, não sabemos como elas se sentem com essa situaçã.

Bia disse...

É, Elaine, uma das coisas mais díficeis de se fazer é colocarmo-nos no lugar dos outros.
Um abraço e obrigada pela visita!