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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Encontrando Forrester

Encontrando Forrester (Finding Forrester, 2000) é um desses filmes que não me canso de ver. Ou, para responder a uma daquelas perguntas típicas de entrevistas pingue-pongue, é um filme que paro para assistir de novo, sempre que está passando na TV.

A história é simples, como são todas as histórias dos filmes mais elegantes que já vi. Jamal Wallace é um jovem negro, morador do Bronx, que tem a chance de cursar uma das mais prestigiadas escolas preparatórias de Nova York, graças a seu desempenho em alguns testes preparatórios e nas quadras de basquete. Acontece que o esporte não é a única paixão de Jamal: o garoto é um gênio da literatura. Ele conhece o recluso escritor William Forrester, interpretado por Sean Connery, e o convence a ajudá-lo com sua escrita. A evolução da simples convivência entre o jovem aluno e o velho escritor em uma sólida amizade é o fio condutor do filme.

O filme é dirigido por Gus Van Sant, o mesmo de Gênio indomável (Good Will Hunting, 1997), estrelado por Matt Damon e Robin Williams. Quem assistiu aos dois filmes, percebe imediatamente as semelhanças: um jovem pobre, mas dotado de uma inteligência fenomenal, encontra a salvação por meio de um tutor que serve de apoio e guia para uma vida melhor. A diferença é que em Forrester, Gus Van Sant troca a matemática de Will pela literatura de Jamal.

O personagem de Sean Connery foi claramente inspirado em J.D. Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye), romance de formação e uma das leituras obrigatórias nos colégios norte-americanos.

Para mim, o grande charme do filme é falar sobre literatura e suscitar questões que estimulam a minha reflexão. Por exemplo, por que autores que escreveram um só livro, na maioria das vezes uma obra-prima, decidem abandonar a pena? Raduan Nassar, uma das vozes mais importantes da literatura brasileira, escreveu apenas três livros antes de, em 1984, recolher-se a um sítio no interior de São Paulo e nunca mais escrever. As excelentes obras (Um copo de cólera, 1975; Lavoura arcaica, 1980; e Menina a caminho, coletânea de histórias escritas nas décadas de 60 e 70, mas publicada em 1994) são prova da força narrativa de Raduan, de que estamos privados talvez para sempre.

Outra questão sugerida por Forrester é algo muito ligado à rotina do escritor. Forrester escreve à máquina. Eu uso um computador. Dizem que J.K. Rowling escreveu o primeiro volume da série Harry Potter inteirinho em guardanapos de papel dos pubs por onde andava. Até que ponto o texto é influenciado pela forma com que as palavras nascem? Palavras escritas à máquina são definitivas, não podem ser apagadas. O escritor pode riscá-las, abandoná-las, mas elas sempre estarão lá, assim como as palavras escritas à mão. Já o texto de computador é diferente, as palavras são engolidas pela ação implacável do Backspace e Delete e se perdem para sempre.

Penso que encontrar um Forrester é o sonho de todo escritor iniciante. Quem de nós, pobres ficcionistas, de ficção pobre, não gostaria de ter um tutor como, vamos dizer, Lygia Fagundes Telles ou Ignácio de Loyola Brandão? O meu Forrester é Marçal Aquino. Ele não é recluso – muito pelo contrário, é de uma simpatia cativante -, mas é na escrita dele que me inspiro. Literatura contemporânea é o que faz minha cabeça e considero Marçal um dos melhores.

Aí vai uma prévia do filme, para animá-los a correr para a locadora mais próxima:

2 comentários:

Ricardo Célio Novaes disse...

Ótomo texto - o filme é bom e 'não é piegas - vela muito a pena!!!

Bia disse...

Obrigada pelo elogio, Papareco, mas eu não me esqueço que quem me apresentou a esse filme foi você.
Um beijo!