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sábado, 18 de novembro de 2006

Os brutos também amam

Ler é uma das minhas primeiras paixões e tem sido desde que me lembro por gente. Lembro que eu tinha 9 anos quando pedi dinheiro para minha mãe e comprei meu primeiro livro sozinha. Tenho o exemplar até hoje, um livro da Stella Carr chamado O Enigma do Autódromo de Interlagos. Meu primeiro livro foi um livro policial.

A Literatura Policial se tornou, desde então, the object of my affection. Sei que muitos consideram um gênero literário menor e alegam que é uma leitura de simples entretenimento, útil apenas para desligar do mundo lá fora, mas não é assim que eu vejo.

A Literatura Policial é um reflexo da sociedade que a cria, não se dissocia, não é ficção. Mas aqui não é o lugar para discutirmos isso, esse feudo pertence a Livraria do Crime, onde colunistas competente discutirão o tema a partir de Dezembro. Confiram, porque a briga é boa.

Para aqueles que buscam em suas leituras discussões mais profundas, dilemas morais acerca do bem e do mal (sorry, Nietzsche), recomendo que leiam alguns romances noir, principalmente os franceses. Estou terminando de ler É Sempre Noite, de Leo Malet. A realidade retratada pelo autor é a de um mundo irremediavelmente mau, em que a única opção é entregar-se ao apelo irresistível da sensação de poder que o crime proporciona, é render-se à embriaguez de não ter limites, de sentir-se livre plenamente, por mais paradoxal que isso soe.

O protagonista, Jean, é assim: soberano de seu próprio reinado. Ao mesmo tempo, o amor que sente por Glória é o único elemento que abala sua tranquilidade. Separei um trecho em que fica bem claro como a volúpia lhe tira a razão :

"Nossas coxas tocavam-se. Eu tremia um pouco, como que de frio. Através do tecido de sua saia, sua carne comunicou-me algum calor. (...) Eu queria respirar plenamente o perfume de Glória, aproveitá-lo até a saciedade. (...) As curvas e as mudanças de velocidade às vezes a jogavam contra mim e eu respirava seu perfume. Era gostoso: aquilo não devia acabar nunca... ou, então, acabar logo de uma vez, que não se falasse mais no assunto. Vi sem emoção precipitar-se contra nosso carro os enormes faróis amarelos de um caminhão. Eles me fascinavam como os olhos injetados de ouro de um monstro esperado. Minha mão, por uma ação própria, evitou o pior. Ela fez todo o necessário para impedir o choque. Agia com plena autonomia. Eu estava ao lado de Glória, e seu perfume - ou seu cheiro - penetravam-me por todos os poros. Nosso veículo deu uma guinada sem gravidade e evitou por pouco o encontro fatal.
(...)
Acabar assim, de repente, os dois, cada um empapado do sangue do outro... Mas nunca era tão simples assim."

Jean, no fundo, é um idealista romântico.

(Nota: essa sensação é a mola propulsora de um outro excelente livro, o brasileiro O Matador, de Patricia Melo - sem palavras para descrever o quão cru é o relato de Máiquel)
Atualização (22/Nov/2007): o site da Livraria do Crime está passando por reformulações para incluir, entre outras novidades, as colunas que mencionei aí em cima. Passem por lá de vez em quando para checar!

2 comentários:

simaocireneu disse...

Opa, o serviço de resenhas começou com qualidade sensacional, como era de se esperar.
Amplexos!

Bibi Smith disse...

Obrigada pelos elogios, querido! Você, como sempre, muito galante!!